Os irmãos Wilbur e Orville Wright nasceram respectivamente em 1867 e 1871, nos EUA. Os dois entraram para a história como pioneiros da aviação. A eles foi concedido o crédito pelo desenvolvimento da primeira máquina voadora mais pesada que o ar, em 1903. Mas nem todo mundo conhece a estreita relação deles com a bicicleta.

Wilbur nasceu em Milville, Indiana, e Orville nasceu em Dayton. Há apenas 150 anos, mas tempo mais do que suficiente para que o mundo mudasse radicalmente. Naquela época, o homem não conseguia fazer gelo. A pesquisa sobre motorização estava apenas começando. O telefone ainda não existia e, claro, voar ainda era um sonho impossível do ser humano. Voar pelos céus, ver o mundo de uma perspectiva aérea, parecia impossível. Até o início do século 20 (mais especificamente em 1903, quando o primeiro vôo motorizado foi feito), os irmãos Wright, junto com outro punhado de inventores (como o nosso ilustre Santos Dumont) mudaram a história para sempre.

Vento favorável

O que nem todo mundo sabe é que, anos antes, Wilbur e Orville Wright eram donos de uma pequena loja de bicicletas em Dayton. Inaugurada em 1892 e localizado na 1005 West Third Street na Wright Cycle Exchange, os irmãos consertavam e vendiam bicicletas novas e usadas. Nenhum dos dois estudou muito além do instituto (embora tivessem conhecimentos de latim, grego e trigonometria), mas se destacaram pelo caráter empreendedor (com menos de 25 anos já haviam dirigido uma gráfica e criado um jornal) e fascínio pela tecnologia. Naquela época, justamente, a bicicleta havia dado um salto importante: engenheiros como o inglês Harry John Lawson deram um giro nas bicicletas para conceber a chamada “bicicleta de segurança”, que equipava duas rodas de tamanho semelhante.

Um dos modelos fabricados e vendidos pelos irmãos Wright.© Arquivo histórico irmãos Wright

Os inquietos irmãos Wright aproveitaram-se desse “vento a favor”. Apenas um ano depois de abrir as portas de seu negócio, eles se mudaram para um local maior e, em 1894, fundaram a Wright Bicycle Company, com sede em 22 South Williams Street. Um edifício mágico que, hoje e com poucas alterações, ainda existe, e onde os Wrights começaram a fabricar as suas próprias bicicletas, a modelo Van Cleve (mais luxuosa e cujo nome recuperou o apelido de uma tataravó) e a mais acessível St Clair. Procurando nos arquivos, é possível encontrar registros em preto e branco de Orville e Wilbur, por trás de seus aventais, trabalhando incansavelmente para construir cerca de 300 máquinas por ano, com preços que variavam de $ 42,5 a $ 65.

Wilbur Wright, trabalhando na loja de bicicletas.© Arquivo histórico irmãos Wright

“Está pensando em comprar uma das novas bicicletas de segurança? Podemos sugerir uma Wright Van Cleve, feita à mão com os melhores materiais e pensada para as suas necessidades particulares?” Assim começou um catálogo, datado de 1900 e que pode ser lido na íntegra na internet, onde os Wrights explicaram detalhadamente todas as características de seu modelo estelar. Porém, apesar do excelente início de negócio, a paixão pelo ciclismo estava diminuindo. Primeiro, por que era difícil competir em um mercado cada vez mais saturado e onde as grandes marcas deixavam pouco espaço para os fabricantes mais artesanais (em Dayton, eles tinham como rival George P. Huffman, criador de máquinas tão fascinantes quanto a Dayton Special ou a Dayton Racer que anos depois daria origem à lendária Huffy Bikes). E assim, a curiosidade dos Wright estava se movendo cada vez mais para longe do solo…

Wilbur e Orville passaram suas horas ociosas observando os pássaros voarem, discutindo como criar uma máquina que levantaria voo e contemplando o trabalho de outros pioneiros, como o engenheiro alemão Otto Lilienthal, que morreu em um de seus experimentos de voo livre. Obcecados pela aerodinâmica, os Wright já haviam construído um túnel de vento no qual testaram asas e peças, e em 1899 pediram ao Instituto Smithsonian todos os estudos científicos sobre aviação que poderiam enviar, garantindo que o voo humano fosse apenas “uma questão de conhecimento e habilidade”. Como Orville diria anos depois, “aprender os segredos do voo de um pássaro foi como aprender os segredos da magia com um ilusionista”. A própria sazonalidade do negócio de bicicletas também os ajudou.

Um dos primeiros voos da invenção dos irmãos Wright.© Arquivo histórico irmãos Wright

Embora sem muito treinamento técnico, os irmãos fizeram algo parecido com uma tandem. Wilbur, que seus colegas definiram como “um menino que vive em seu próprio mundo”, tinha uma capacidade criativa enorme. Orville, por sua vez, possuía um talento nato para os negócios e grande destreza com as mãos. Foi assim que seus modelos deram lugar a modelos cada vez mais desenvolvidos, equipados com motores de design próprio e até 12 cavalos de potência. Até que, em 17 de dezembro de 1903, seu modelo Flyer voou pilotado por Wilbur (eles jogaram uma moeda para decidir quem dos dois estaria no comando). Uma viagem de apenas 12 segundos e de 36,5 metros.

Os irmãos Wright.© Arquivo histórico irmãos Wright

Nenhuma grande façanha é simples: durante anos, os Wright foram tachados de impostores, porque ninguém acreditava que com pouco dinheiro aqueles dois jovens seriam capazes de tal façanha. As bicicletas, em todo o caso, já tinham ficado para trás: deixaram de fabricá-las em 1904 e, em 1909, venderam as patentes e os direitos do modelo Van Cleve a um certo WF Meyers, que o manteve até 1939. É possível ver dois modelos de bicicleta dos irmãos Wright, um no Museu Nacional do Ar e Espaço do Smithsonian, em Washington, DC. O outro está no Museu Henry Ford em Dearborn (Michigan).