Bicicleta é coisa de trabalhador, é utilizada a semana inteira por várias razões, entre elas o baixo custo e o bem-estar proporcionado, e não se transformou numa opção de transporte para mais pessoas porque as cidades ainda oferecem uma malha cicloviária muito tímida. Essas constatações – que estão na ponta da língua de quem pedala e/ou tem relação direta com a bike – constam na segunda edição da pesquisa O Perfil do Ciclista Brasileiro, apresentada durante o VeloCity 2018, o maior congresso mundial sobre a bicicleta, realizado pela primeira vez na América Latina, no Rio de Janeiro. Os dados, embasados em entrevistas com quase 8 mil ciclistas brasileiros, além de alguns argentinos e colombianos, confirma o que cicloativistas gritam aos quatro cantos há muito tempo: a população pedala, gosta de pedalar e quer usar ainda mais a bike se houver infraestrutura para protegê-la no trânsito.

No panorama nacional, o levantamento não deixa dúvidas de que a bicicleta é usada como transporte, e não como lazer, como muita gente pensa: quase 76% dos entrevistados fazem uso para ir e voltar do trabalho. O lazer, de fato, vem na sequência, com 61,9%. Para fazer compras é a opção de 55,4% e para chegar à escola ou faculdade vem em seguida, com 25,4%. Quando analisado o tipo de uso da bike, mais evidências de que a bicicleta deve ser vista por gestores públicos, políticos e instituições como uma opção séria de alternativa de mobilidade urbana ao automóvel: 82,5% pedalam cinco dias ou mais por semana, 59% aderiram à bike como transporte há menos de cinco anos, e 18,2% a utilizam como uma das pernas do deslocamento urbano, geralmente mesclada com o transporte coletivo – o que destaca a força dos sistemas de compartilhamento de bicicletas públicas.

   “Temos apoiado estudos e pesquisas porque sabemos que a infraestrutura cicloviária é fundamental para ampliar o uso da bicicleta nas cidades. Sem ela muita gente desiste de pedalar. Queremos, assim, subsidiar as prefeituras, os tomadores de decisões, para investirem adequadamente os recursos em infraestrutura viária tanto para os que já são ciclistas como para aqueles que poderiam migrar do automóvel para a bicicleta” – Simone Gallo, gerente de Relações Institucionais e Governamentais do Banco Itaú Unibanco

A relação do uso da bicicleta com o trabalho, entretanto, tem relação direta com o baixo (quase zero) custo do pedalar. A pesquisa mostra que 40,3% dos entrevistados têm renda entre um e dois salários mínimos. E que 55% levam entre 10 e 30 minutos nos deslocamentos de bike. Ou seja, é barato, rápido e faz bem à saúde e ao meio ambiente. “O objetivo é entender quem é o ciclista brasileiro. Sabemos que 10 milhões de pessoas usam a bicicleta todos os dias, mas temos poucos dados sobre elas no Brasil. Agora, com a pesquisa, sabemos que há uma diversidade de pessoas, de diferentes grupos socioeconômicos, que utilizam a bicicleta no percurso casa-trabalho. Conseguimos quebrar o mito de que a bicicleta é utilizada para o lazer e por pessoas de maior renda”, defende um dos coordenadores da pesquisa, Victor Andrade, que também comanda o Laboratório de Mobilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LabMob-UFRJ).

Na leitura local, o ciclista recifense segue o mesmo perfil do cenário nacional. O uso da bicicleta para o trabalho é ainda maior, chegando a 85% dos entrevistados; 34,3% usam a bike em combinação com outros modos de transporte e 75,8% pedalam cinco dias ou mais por semana. Quando o levantamento relaciona as principais razões que fazem os recifenses usar a bike, o que os faria pedalar ainda mais e o que os assustam, a rapidez e a praticidade são os principais estimulantes, enquanto que a ausência de infraestrutura cicloviária é vista como o divisor de águas para a prática do pedalar. Para 56.6% dos ciclistas recifenses, a existência de ciclovias e ciclofaixas faria com que pedalassem mais e 43,6% afirmaram que o fato de não existir prioridade para a bicicleta nas ruas é o grande problema diário para pedalar.

O Perfil do Ciclista Brasileiro é uma publicação realizada pelo LabMob em parceria com a ONG Transporte Ativo. Nesta segunda edição, além do Brasil, foram incluídas cidades da Argentina e Colômbia. No Brasil, foram entrevistados 7.644 ciclistas em 24 cidades das diferentes regiões brasileiras: Afuá (PA), Antonina (PR), Aracaju (SE), Belém (PA), Brasília (DF), Cáceres (MT), Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Gurupi (TO), Ilha Solteira (SP), Mambaí (GO), Manaus (AM), Niterói (RJ), Palmas (TO), Pedro Leopoldo (RS), Pomerode (SC), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), São Fidélis (RJ), São Paulo (SP), Sorocaba (SP), Tamandaré (PE) e Tarauacá (AC). Na Argentina, a pesquisa foi realizada em 4 cidades: Rosário, Salta, Santa Rosa e Villavicencio. Já na Colômbia, foram 3 cidades: Bucaramanga, Medelín e Popayan.