Sentimento de Paz e Liberdade | a história por trás do desenho

Tínhamos acabado de passar um dia descansando na cidade de Miandoab (“entre rios”, na tradução literal), aproveitando a companhia de nosso amigo Roberto Rineri, que viajava pelo Irã de moto e veio nos encontrar. A despedida melancólica do amigo nos fez pedalar calados, mas firmes, em busca de conhecer mais e mais desse país, do qual tanto o amigo nos falou.

Pastor e Ovelhas no Entardecer | crônica de um dia de viagem pelo Oriente Médio

O destino era a visita ao sítio arqueológico e ruínas de Takht-e-Soleiman. Tanto o principal santuário Zoroastriano, parcialmente reconstruído no século 13, bem como um templo do período Sassânida (séculos VI e VII), influenciaram fortemente o desenvolvimento da arquitetura islâmica, conferindo ao lugar o tombamento como patrimônio mundial pela UNESCO. Mas pra chegar lá, seriam dois dias de pedaladas.

O primeiro dia foi longo, 90 km pedalados subindo o vale do rio Zarrine, apreciando as montanhas ao longe. Deixando o vale, começamos a subir em direção leste; a paisagem foi se transformando, ficando mais árida, sob o sol escaldante do verão do Oriente Médio.

© Rafaela Asprino

Viajar pelo Irã é, acima de tudo, uma experiência antropológica.

Como em todos os outros dias da viagem, recebemos comida e água de humanos de bom coração que cruzaram nosso caminho.

© Rafaela Asprino

Já era final de dia, sendo assim, compramos alguns alimentos frescos para o jantar na pequena cidade de Sanjod e seguimos subindo pela estrada tortuosa. Com a atenção redobrada em cada detalhe da estrada, começamos a procurar um lugar com sombra para colocar nossa barraca e passar a noite.

Vimos um pequeno bar, paramos para descansar e compramos uma cerveja sem álcool bem gelada. Enquanto nos refrescávamos, uma família passou e nos presenteou com uma garrafa de água congelada. De fato, um presente desses vale mais que ouro naquele lugar. Teríamos água gelada até o final da noite em nosso acampamento.

© Rafaela Asprino

O lugar do descanso, e da experiência

Ao lado do bar tinha um portão, ao fundo, vimos árvores…. Este era o lugar! Fomos perguntar no bar e nos autorizaram a colocar nossa barraca ali, longe da estrada e com bastante sombra.

Montamos nosso acampamento e, enquanto fazíamos a comida, vimos passar no alto do morro um pastor montado em um burrinho, seguido de suas ovelhas.

Aos poucos fomos relaxando, procurando um estado de conexão com o ambiente que nos abrigava.

© Rafaela Asprino

Depois de comer, como que buscando um clímax do nosso sentimento de liberdade, decidimos deixar todas as nossas coisas, inclusive câmeras, dinheiro e documentos, no interior da barraca, subir para a beira da estrada e apreciar o pôr do sol.

Nesse momento, desnudos de todas as nossas seguranças, mas vestidos de vida, presenciamos uma cena única e sublime… Outro pastor passou, dessa vez a pé, com seu cajado, seguido por suas ovelhas. Aquela imagem na contraluz do pôr do sol imprimiu-se instantaneamente em minha mente. E, dessa vez, nada poderia nos tirar desse momento mágico. Sem câmeras, celular ou outra forma de registrar a cena, ficamos ali, apenas observando o trabalho sistemático e puro daquele homem.

De volta à barraca, antes que anoitecesse, fui correndo pegar papel e lápis. Na tentativa de eternizar o sentimento de paz e liberdade, com algumas linhas, reproduzi a imagem do pastor e suas ovelhas no entardecer.

© Rafaela Asprino

O que era para ser mais um dia ordinário de viagem, conectando dois eventos: o encontro com o amigo e a visita da atração turística, se transformou em um dia especial exatamente porque nos permitimos parar no meio do nada e observar o que o acaso tinha para nos entregar.


Epílogo

Durante a viagem por Turquia e Irã fiz vários desenhos, cada um deles com uma história, que revela uma experiência. Esteticamente, o desenho do pastor não era o meu preferido. Mesmo assim, decidi colocar à venda em nosso site. E ele se tornou o mais vendido. Também foi escolhido pelo amigo Gustavo Bettini, quando estava desenvolvendo um novo modelo de moldura para o portfólio do Atelier de Impressão. A interação destes observadores com o desenho me fez ressignificá-lo. Mesmo sem saber dessa história que acabo de lhes contar, eles escolheram este desenho. Talvez eu tenha, de fato, conseguido traspassar para as linhas o sentimento de liberdade e paz daquele momento no pôr do sol de Sanjod.

© Rafaela Asprino