Coisas de mulherzinha… Assuntos inevitáveis para uma viagem de bicicleta

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Há “coisas” que ninguém fala por aí, que nunca aparecem nos relatos de viagem, mas que deixam as meninas com muitas dúvidas e receios, especialmente aquelas que têm muita vontade de viajar de bicicleta, mas que ainda não tiveram a oportunidade de experimentar. Estou falando de coisas relacionadas ao corpo e ao comportamento feminino e viagens mais longas de bicicleta.

Antes de viajar pela primeira vez de bicicleta eu não sabia nada de nada, nem que viagem de bicicleta até tinha nome, o tal do cicloturismo ou cicloviagem. Foi depois de ir, e voltar, da minha primeira viagem que durou 10 dias, que comecei a pesquisar mais sobre o assunto. Como antes só fiz viagens curtas, certas coisas nunca foram uma grande preocupação pra mim. Até que decidimos realizar uma viagem longa, e já estamos há quase um ano e meio na estrada. Muitas dúvidas também surgiram para mim antes de iniciar esta viagem e o que fiz foi pesquisar.

Então, vamos por tópicos. O que relato aqui é um pouco do que pesquisei e já experimentei, pois há muitas coisas que só se descobre experimentando e testando.

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Prepara a roupa lã de llama que a neve tá caindo! Proximidades do povoado Catua, Argentina

Como cuidar das unhas das mãos em cicloviagens

Não, isso definitivamente não entra como assunto desta matéria. Há coisas mais bonitas numa mulher que viaja de bicicleta do que suas unhas pintadas. Então, por favor, não me chame de relaxada, deixei a frescura de lado e compartilho o cortador de unha com meu marido que já está de bom tamanho em termos de cuidados com as unhas. Vamos aos assuntos mais urgentes que unhas malfeitas e sujas de graxa?

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Quem iria adIvinhar que a 4.300 msnm seria necessário ter biquini na bagagem?! Termas de Polques, Parque Eduardo Avaroa, Bolívia

Guarda-roupas no alforje

Quanto menos roupas levar, melhor. Suas pernas vão agradecer naquele subidão infinito!
Em climas frios, a quantidade de roupas que eu recomendaria são estas:
• Duas camisetas manga longa finas: uma para pedalar (sintética de rápida secagem) e outra para dormir (melhor se for de algodão por ser mais confortável para o sono);
• Uma regata: pode acontecer algum dia atípico e quente no meio do caminho;
• Um ou dois tops: no clima frio, um só foi suficiente para mim, mas um a mais não teria sido nada mal;
• Uma bermuda de ciclismo com almofada fina (tipo triatlo, que seca mais rápido);
• Quatro ou cinco calcinhas de algodão sem elástico nas bordas que contornam virilha e coxas. O algodão é mais indicado para a área íntima, apesar de reter mais umidade, ele não deixa tanto desconforto como as sintéticas. Todas as sintéticas que eu levava eu descartei e troquei por algodão. A quantidade é alta porque em climas frios você não vai ter vontade e possibilidade de lavar roupa todos os dias, e elas também não vão secar tão rapidamente;
• Três a cinco meias: deixando uma meia comum sempre limpa para dormir, uma ou duas comuns para pedalar, uma de lã, como as de llama e alpaca que encontramos em mercados artesanais nos Andes, uma técnica, destas com fibras especiais para não reter umidade e esquentar em áreas específicas;
• Segunda pele de polartec: uma camisa e uma calça segunda camada para isolar a temperatura;
• Um casaco tipo Polar/Fleece: com zíper no pescoço ou até a cintura para facilitar vestir com capacete;
• Um casaco e calça corta-vento e/ou impermeável;
• Uma calça à paisana. Eu gosto muito destas que tem zíper no joelho e viram bermuda. Adaptei-me a pedalar com uma destas também;
Para climas quentes:
• Duas regatas;
• Dois tops;
• Uma camiseta manga longa, para proteção do sol;
• Um short de secagem rápida;
• Uma calça leve (calça-bermuda, para evitar mosquitos e queimadura do sol);
• Um biquíni;
• Duas meias, para pedalar e evitar mosquitos.

Short e biquíni são especialmente úteis em certos locais tropicais. A maioria dos chuveiros que encontramos na região amazônica são fora das casas das pessoas e não oferecem muita proteção da visão dos transeuntes, então, melhor tomar banho de biquíni e até com um short. O mesmo para quando for se banhar num igarapé ou rio, normalmente na beira da estrada, onde você é vista por todos que passam.

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Aqui o rosto todo tapado era por conta do vento e do frio seco na Puna Argentina. Mas esta “fantasia” ia muito bem em locais onde me chateava com comentários dos homens pelas estradas do Peru

Minha experiência com roupa na viagem de bicicleta:

Em países onde a sociedade é mais machista e potencialmente perigosa, e você quiser ser discreta, evite usar roupas cor-de-rosa. Também evite roupas curtas e justas demais, a não ser que sua intenção seja atrair as atenções para assobiadores e outros elogios não muito corteses. Dê preferência a cores discretas ou que não revelem, desde longe, aos transeuntes que você é uma mulher: assim eles não têm tempo de pensar em piadinhas ou atitudes piores até se aproximar de você. Em locais onde acampar selvagem e não quiser ser visto por quem passa na estrada, use roupas de cores pastel, evite amarelo, vermelho, azul, pink. Prefira cinza, verde ou preto, mais difícil ser avistado de longe. Em alguns povoados do Peru, o desconforto com os “elogiadores” me foi tão grande que resolvi até tapar o rosto com uma bandana, para completar capacete e óculos escuros. Isso resolveu o problema, e como uso calças largas pra pedalar e estava de casaco, eles nem percebiam que eu era mulher. Muitas vezes, o melhor é evitar a chateação.

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Ventos laterais no Sudoeste da Bolívia, a 4.600 msnm

O maldito selim!

Pois é, seja amiga dele… É preciso estabelecer uma longa e duradoura amizade com o seu selim. Eu tinha um GTS de espuma que adorava e foi meu amigo por dois anos, até que começou a ceder a sustentação – e eu nem tenho tanto sobrepeso! – e me dar problemas no cóccix. Desfiz a amizade. Fiz as contas e na época se eu precisasse trocar de selim de dois em dois anos, em quatro anos eu poderia ter pagado por um durável selim Brooks, feito em couro, como aqueles que vinham nas bicicletas de antigamente. Em pesquisas sobre cicloturismo sempre encontrei esse banco como referência para longas distâncias, com relatos de usuários há mais de quatro décadas. Se em quatro anos já compensava financeiramente, imagine em 40 anos? Mais do que se paga. Na época ainda não havíamos mudado nossa alimentação para o veganismo (tenho o selim há quatro anos, somos veganos há dois anos), mas tinha uma justificativa econômica e de certo ponto ecológica: ao menos o couro é biodegradável e esse selim vai durar 40 anos, ao passo que meu antigo GTS – duvido muito que foi reciclado – só foi possível usá-lo por dois anos. Em 40 anos, haja selim pra se reciclar! Hoje em dia, a Brooks já desenvolveu um modelo de selim “vegano”, feito com tramas de algodão que segue o mesmo estilo do feito em couro.

No início, o Brooks foi como uma cruz que eu tinha que carregar por gostar de pedalar e ser pão dura. O maldito não amaciaria após os “primeiros” dois mil quilômetros. Fiz um Audax 200 inteiro após já ter pedalado nele mais de 1.500 km e nada de dar sinais de flexibilidade. Isso resultou em alguns problemas de cistos no local onde o ísquio apoia no selim, e a pomada que a médica receitou não curou os ferimentos. O que resolveu pra valer foi comprar uma bermuda acolchoada, que eu nunca havia usado até então. A bendita bermuda custou quase o mesmo tanto que gastei no selim na época, mas resolveu meu problema. Escolhi uma cuja espuma é fina, usada para triatlo. Pensei no fator lavar-e-secar tão importante em cicloviagens. Estou adorando a combinação desta bermuda com o selim de couro. Está bastante respirável, confortável e no final do dia posso lavar a bermuda com a certeza de que secará até a manhã seguinte, caso o clima não esteja úmido demais. Além disso, o fato da espuma ser fina ajuda muito esteticamente, não por vaidade, quero dizer que com a calça comprida por cima, não parece que estou usando uma fralda geriátrica toda vez que entro num supermercado naquela cidadezinha de interior.

Outro fator relacionado a desconfortos no selim pode não ser apenas ao modelo de selim que você escolheu. Pode ser posição, inclinação e até o tamanho do quadro e do canote. O importante é que o apoio dos “ossinhos”, os ísquios, esteja bem distribuído e que seu peso corporal seja dividido entre estes pontos de apoio: ísquios, pulsos e pés, de modo que não sobrecarregue nenhum deles em demasia.

Hoje, depois de 20.000 km rodados só nesta viagem, meu selim ainda parece como novo, muito pouco amaciado apesar do intenso uso diário. Assim mesmo estou acostumada a ele, e já dispensei o uso da bermuda de ciclismo com espuma. No entanto, é preciso ter cuidado de não deixar o selim de couro tomar chuva, nem ficar muito ressecado em regiões desérticas ou de clima seco. Para isso existe uma cera específica usada para hidratar e manter o couro. Dizem as más línguas que qualquer produto destes usados para calçados já resolve, mas eu nunca testei.

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Se no seu caminho surgir um rio de degelo para atravessar a pé, melhor não estar naqueles dias, sua mãe ficaria horrorizada! Estrada para o Paso El Leon, Argentina


Alerta do nojinho: Não leia o texto abaixo se você não aguenta ouvir sobre assuntos mais escatológicos sem ter nojo!
Para as partes mais, digamos assim, íntimas, a combinação de pedalar o dia inteiro com a falta de uma bela ducha no final do dia, pode gerar a proliferação de coisas indesejáveis, principalmente se seu organismo não está 100%, com imunidade baixa, e isso geralmente vem acompanhado de vários dias de má alimentação, tão comuns em uma viagem longa de bicicleta. Eu não tenho formação nenhuma na área médica, mas dentro da minha ignorância, buscando uma melhor higiene e conforto (principalmente em locais onde temos pouca água), minha experiência comprovou que algumas medidas colaboraram para diminuir a proliferação destas “bactérias e fungos” que geram desconforto. Também encontrei um relato de uma ciclista que deu a volta ao mundo nos anos 90, falando dos benefícios do chá de orégano. Uma das medidas que tomei foi a diminuição do consumo de glúten, quando possível. Outra foi a higienização destas partes corporais com lenços úmidos para área íntima, e quando não foi possível encontrar este produto nos locais por onde passamos, utilizava chá de orégano e um lenço de tecido. Conforme a dica da ciclista citada acima, comprovei neste mais de um ano de viagem que o chá de orégano ajuda muito. Assim foi possível aliar longas travessias em áreas remotas (que muito frequentemente estão ligados à escassez de água), sem passar perrengue com desconfortos nas áreas íntimas.


Dias do ciclo (menstrual)

Evito pedalar nestes dias. Sinto que meu corpo reage melhor se repousar nos primeiros dias do ciclo. Mas nem sempre isso é possível, principalmente quando estamos em um lugar onde não há local para comprar comida para os próximos dias. Às vezes é preciso seguir mesmo não estando com a mínima vontade de pedalar naquele(s) dia(s). O que ajuda é saber exatamente a data em que vai chegar seu ciclo, aí pode programar com maior precisão onde estará e se será possível reservar uns dias de pausa. Algumas pessoas me recomendaram o uso de medicamentos para bloquear a menstruação, mas colocar pra dentro do meu organismo uma substância que ninguém garante que efeito terá a longo prazo, não me convence nem um pouco.

Resolvi buscar uma alternativa menos química para o problema. Pensando nisso e no desconforto de usar absorventes comuns e descartáveis, adquiri alguns meses antes de nossa partida, um daqueles copos menstruais, ou coletores menstruais, para testar em casa e ter um tempo de adaptação antes da viagem. Li em vários sites reviews deste produto usado por mulheres em suas viagens de bicicleta. Até agora posso dizer que deveria ter comprado um destes antes. É muito prático até para quando se está parada em casa. Na estrada, é possível usá-lo e fazer a sua limpeza com pouquíssima água. É sempre bom ter à mão álcool em gel, papel higiênico ou lenço umedecido, uma toalhinha e uma garrafinha de água. Por experiência própria, prefira fazer a “manutenção” nestes dias difíceis no meio do mato. Fazer isso em banheiros sujos ou do tipo coletivo (quando a pia não é no mesmo ambiente dos sanitários) pode ser uma tarefa desagradável. Além disso, nossos fluidos são ricos nutrientes para a terra, um adubo que as plantinhas vão curtir! No próximo ciclo, basta ferver o copo em água conforme instruções da marca que você adquirir. Mesmo usando o copo, pode ser ainda preciso usar um pequeno absorvente até você estar completamente adaptada a posicionar o coletor menstrual, pois nos dias mais intensos pode acontecer de vazar um pouco, mas isso nem se compara aos fraldões de antes. Ufa!

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Terreno difícil junto com cólica menstrual bem à beira de entrar no Salar de Uyuni, usando a bike para barrar o vento. Bolívia

Higiene em viagem de bike, ou “os dias sem ducha”

Para homens, ficar um ou mais dias sem banho, vá lá. Mas para as mulheres isso pode ser um problema que vai além dos dias em que não foi possível tomar aquela chuveirada após o dia inteiro de pedal. Em uma viagem em que a hospedagem é de graça, leia-se, acampamento onde encontrar um local pra sua barraca no final do dia, nem sempre há torneira, que dirá chuveiro ou um riacho para se banhar. Nas primeiras viagens, improvisava um banho jogando água com a caramanhola, mas acabava gastando muita água nesse banho tosco que não limpava nada. Depois que hospedamos um casal de franceses que finalizavam sua viagem em Floripa, é que pegamos a dica para ter “noites sempre limpos” sem gastar fortunas com lenços umedecidos. Costuramos uma espécie de luva sem dedos, com pedaços de uma camiseta velha de algodão. Neste “banho”, consegui meu recorde em mínimo gasto de água: 200 ml!

Claro que em dias de pouca água, lavar o cabelo não dá, por isso, passei a máquina e mandei os cachos embora, para o horror da minha mãe.

Além disso, não usamos creme protetor solar. Nosso bloqueador é físico mesmo e chama-se Roupa Comprida e Boné. Mesmo nos dias em que dá vontade de pedalar de biquíni, lá estamos nós cheios de roupa.

A roupa comprida tem suas vantagens. Uma delas é que toda meleca da estrada, poeira e fuligem que grudaria no seu suor e faria uma massa corrida com seu protetor solar, são barradas pela roupa, então, o banho de luva é facilitado. Outra vantagem é o gasto com o custo do protetor, além de que, esses cremes tem tanta química na composição que eu não sei o que é mais cancerígeno: se é o sol do meio-dia ou esse tanto de química penetrando pelos poros de nossa pele.

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Preparando o baldinho pra tomar um banho de paninho dentro da barraca. Acampando na beira da estrada, Chile

A hora do nº 2, ou “se escondendo atrás da moita”

Isso é algo que, em uma viagem de bicicleta, você vai ter que aprender a lidar! Para seu bem. Nem sempre surgirá um posto de gasolina com banheiro em seu horizonte na hora em que a natureza chamar. E hoje em dia eu acho que atrás da moita há mais paz que em um assento nojento forrado de papel higiênico no melhor estilo jogo da velha. Por isso, se antecipe e deixe sempre em fácil acesso uma pá, que pode ser destas de jardinagem mesmo, papel higiênico, uma garrafinha de água e seu calçado; e se sua horinha for à noite, uma lanterna também é bom. Nesse momento, não adianta chamar a mamãezinha. Tenha o cuidado de fazer o serviço a uns bons 100 metros de qualquer fonte de água, e também longe o suficiente da área onde você acampa. Depois que fizer seu buraco na terra, tenha a bondade de tapar para ninguém pisar na sua sujeirinha e não atrair insetos e outros animais. Pode deixar o papel por lá enterrado com o defunto, que a mãe natureza se encarrega de degradar. Muitos parques nacionais na Argentina inclusive aconselham este método de banheiro ecológico nas áreas de camping livre. Há quem diga que a posição de defecar de cócoras, ao natural, é até mais benéfica para o corpo do que a posição sentada.

Caso não tenha mato por perto e nem um banheiro para esconder o seu bumbum nesses momentos de tensão, li em algum site dessas cicloviajeiras estrangeiras doidas uma bela dica, que ainda não tive o desprazer de testar, mas sei que mais hora, menos hora, esse momento pode chegar. Confesso que morro de nojo de precisar recorrer a esta técnica. É o seguinte: tenha sempre alguma sacola de papel como essas de pão, guardadinha em algum lugar de sua bagagem ciclística, para os momentos onde é impossível cavar um boa cova em um local mais privado da visão alheia. Aí arrume um cantinho escondido, prepare sua sacolinha e faça como fazem as madames que passeiam com o cãozinho na calçada, defeque na sacolinha de papel e leve-a com você até um local onde seja possível enterrar. Certifique-se de que a sacolinha não tem rasgos anteriormente! Pode até parecer muito nojento, mas em certas situações pode ser a única saída. Uma alternativa em questão de sacolas para carregar seu excremento em situações extremas, melhor que a sacola de papel, pode ser as sacolas “Oxi-bio-degradáveis” que alguns supermercados estão oferecendo, o que significa que se você enterrá-la, ela se degradará muito mais rapidamente do que as comuns sacolas de plástico. Então, na próxima compra, guarde algumas delas… Vai que, né?!

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Não deu coragem, só um lencinho no corpo já pode ser considerado um belo banho. Reserva Nacional Cerro Castillo, Chile

Acessórios para urinar em pé

Confesso que adquiri um. Mas não curti. Então, testei bastante tempo em casa, com o intuito de levá-lo na viagem de bike. Mas a experiência foi tão desastrosa que acabei desistindo do acessório. Para mim, um penico funciona muito melhor a um custo zero. O que eu testei foi o Go Girl, e não me adaptei.

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Lavando a cabeça num riacho de água de degelo no final de um dia de chuva no Parque Queulat, Carretera Austral, Chile

Polêmico penico!

O penico, ou, como eu gosto de chamar, banheiro-móvel para cicloviagens, foi a grande invenção do século! Uma garrafa PET cortada ao meio pode ser um ótimo penico que pode te salvar em diversas situações de aperto. Há quem não defenda o uso do penico. Mas vou listar aqui algumas vantagens e desvantagens do uso deste acessório, e julgue você mesma:

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

“Onde está Wally?”. Roupas de cores discretas ajudam na camuflagem em locais onde não há muita moita para se esconder. Estrada entre Abancay e Pisco, Peru.)

Desvantagens:

• Após o uso, é fundamental higienizar com água para evitar que o mau cheiro impregne;
• Difícil encontrar uma maneira prática de carregar o penico na sua bicicleta (pendurado, dentro do alforje?);
• Seu companheiro de viagem pode confundir seu penico com outra coisa;
• Conseguir discrição no momento do descarte, além de ser preciso uma certa dose de equilíbrio e mira na hora de esvaziar o penico fora de sua barraca;
• Desperta a inveja enrustida nos não usadores de penicos.

Vantagens:

• No meio da noite não precisa sair da barraca e enfrentar temperaturas abaixo de zero, ventos, chuvas e insetos, só para esvaziar a bexiga;
• Falando em baixas temperaturas, encher uma garrafinha PET bem vedada com um recém-chegado xixi quentinho pode auxiliar a esquentar os pés numa noite congelante;
• Ele te salva quando você acampar no quintal da casa de pessoas, o banheiro ficar trancado e você não quiser acordar ninguém ao dar aquela vontade de urinar em plena madrugada;
• Quando acampar em campings livres e o local estiver cheio demais, e fica impossível encontrar um lugar onde ninguém te surpreenda neste momento pouco nobre;
• Quando os banheiros dos campings são nojentos, sujos e fedidos demais;
• Quando os banheiros dos campings estão todos cheios e com fila e seu xixi é urgente, urgentíssimo;
• Quando o banheiro do camping é longe demais;
• Quando você acampa selvagem com mais pessoas numa área de deserto, onde não há vegetação ou pedras para se esconder.

© Ana Vivian e André Costa / WWW.PEDARILHOS.COM.BR

Pose “ Diva”, coisas que a adrenalina de uma longa descida pelas montanhas faz no cérebro da pessoa!)

Há quem tenha nojo de seus próprios excrementos, mas saibam que a urina é estéril, e por possuir ureia, é muito benéfica para as plantas. Só tenha o cuidado de quando descartar seu xixi em uma área natural, verde, como campigns livres ou selvagens, não fazê-lo próximo à área onde as pessoas geralmente colocam suas barracas ou próximo a fontes de água onde as pessoas se banham ou utilizam aquela água para cozinhar e beber. Procure descartar ao pé de plantas não comestíveis. Se for um local onde há banheiros “de verdade”, descarte discretamente por lá mesmo.

Os assuntos descritos nesta matéria não são agradáveis de se relatar. Mas muitas pessoas, em especial as mulheres, ainda não viajaram de bicicleta por não saber como lidar com alguns destes itens. Então, para poder desfrutar dos encantos de viajar de bicicleta, é preciso aprender a atender às necessidades fisiológicas do corpo e do comportamento feminino. Depois, restarão as belezas e desafios do caminho para relatar…