As provas de longa duração se popularizaram no país e um novo caminho se abre – as mais longas ainda. Qual será a transformação dos atletas de endurance no Brasil?

A muitos anos discutia-se no meio do mountain bike sobre o que é uma maratona. No ciclismo, não existe uma determinação específica como na corrida a pé, onde considera-se maratona somente se percorridos os 42,195 quilômetros de extensão (medida oficial da IAAF – International Association of Athletics Federations). Ainda no exemplo da corrida a pé, utiliza-se o termo Ultra maratona somente quando a quilometragem é aproximadamente o dobro da maratona, ou seja, distâncias acima dos 80 quilômetros.

Para o ciclismo sempre foi um pouco subjetivo, e alguns organizadores de competições banalizaram o termo “maratona” e o utilizam para corridas com menos de duas horas de duração.

O início da Brasil Ride, em meados de 2009, popularizou o termo “Ultra Maratona de MTB”. A modalidade jamais imaginada no Brasil tornou-se o grande objetivo dos aficionados por bike. Isso nivelou o esporte por cima e aumentou a paixão por longas distâncias.

O 12 Horas de Mountain Bike organizado pelo Sampa Bikers completa 22 anos de existência, mas ainda é algo novo para os ciclistas do país que, recebe pela primeira vez o Campeonato Mundial de 24 Horas de Mtb.

E por que as provas de 24 horas de duração, modalidade que ainda engatinha no Brasil – e ainda é recusada por diversos atletas de longa distância – tiveram seu lugar ao sol no país do futebol?

A resposta vem da cultura que o esporte nos trouxe. O mountain bike não é um esporte estático, como o futebol; dois tempos de 45 min com acréscimo de 1 a 5 minutos, pênalti e prorrogação de 30. Não, o mountain bike não tem limites tão claros. Mesmo quando o organizador da prova lança um percurso de 120 quilometros, você já tem que largar pensando na possibilidade de alguma zebra aumentar aquilo pra 150 km, ou quem sabe a quantidade de subidas e descidas técnicas vão quebrar o seu planejamento de fazer a prova em 6 horas, jogando seu tempo para 9 ou 12 horas – quem nunca?

Pois é. E se você já tentou definir para alguém como são os obstáculos de uma pista de MTB, você já viu que as dificuldades técnicas também são uma caixinha de surpresa – uma escalada sem limites. Bem, bem diferente do futebol. É por isso que nós estamos crescendo mais que eles.

Uma aposta pertinente para o atual cenário é de que um novo conceito de Ultra está querendo entrar no Brasil.

Não das ultra maratonas como a Brasil Ride – essas provas por etapas (stage races) já entraram e já cativaram a todos que se aventuram a competir sob duas rodas.

A aposta é nas provas acima de 1.000 quilometros de duração, espalhados em 7 a 10 dias, sem apoio nem nada. É o que os nossos vizinhos Peru, Argentina e Chile já adotaram – pesquise por Inca Divide.

“Ah, mas é muito sofrimento!”. Foi o mesmo que disseram quando começou a Brasil Ride, que hoje nos coloca em um patamar de disputa com os países que são extremos no esporte. Foi o mesmo que disseram – acredite – quando colocaram o pulo da Dona Beja na pista de Araxá em 2011. Hoje a CIMTB em Araxá é uma das etapas mais reconhecidas pela UCI – e os praticantes de cross country se inovaram no esporte e hoje passam pelo Dona Beja com um sorriso no rosto. Os desafios que um dia foram considerados como um exagero, hoje elevaram o nível técnico dos nossos atletas.

Sonhar alto é sempre uma loucura, até que alguém vai lá e realiza. Assim crescem os nossos atletas e o nosso esporte.

E você, já pensou no seu próximo degrau?

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