No MTB, o que se convencionou chamar de Enduro é o que tem mais angariado entusiastas, apesar do termo ainda não ter um conceito unânime e bem defi nido. Mais importante que um conceito formado é entender que sua essência incorpora como nenhuma outra modalidade a ideia inicial do mountain biking: adrenalina e diversão entre amigos montanhas afora, da mesma forma que fi zeram os garotos que adaptavam suas Schwinns para trilhar o Monte Tamalpais na Califórnia dos anos 1970.

uando “descer montanhas” passou a ser uma disciplina esportiva (o Downhill), logo foram criadas tecnologias, bicicletas e acessórios especializados para este fim. Mas o extremo leva a restrições. Em uma bicicleta que tem por objetivo apenas descer, faz sentido prezar pela resistência ao invés do peso e ter uma suspensão dianteira de 200 mm, por exemplo, mesmo que isso praticamente a impossibilite de subir.

Mas digamos que você queira só se divertir com seus amigos em uma trilha no final de semana. Você quer a adrenalina de fazer uma descida, mas não abre mão de pedalar até lá em cima, de maneira autônoma, carregando tudo o que você precisa para o deslocamento, inclusive ferramentas e suprimentos. Coloque tudo em uma mochila nas costas e eureca: eis o Enduro.

Para Eduardo Iru, de São Paulo – SP, “o Enduro é exatamente como nasceu o MTB: caras condicionados e pilhados para subir que curtiam a descida. Pode-se dizer que é uma mistura de Cross-country com Downhill. Tenho visto cada vez mais pessoas praticando. Eu mesmo sempre que posso meto umas descidas para dar adrenalina”.

“Eu amo pedalar desde criança”, diz Rafael Rocha, de Indaial – SC, “e acredito que desde aquela época eu praticava Enduro, porém, chamávamos apenas de trilha de mountain bike. Cresci junto com amigos que compartilhavam desta mesma ideia”. Essa é a pegada! Para Daniel Bender, um dos organizadores do Shimano Brasil Enduro Series, “o Enduro sempre existiu, mas não de uma forma competitiva como agora. O Enduro é aquele rolê que você faz com seus amigos nos finais de semana, que dura seis, oito horas. Aquele pedal em que você precisa levar água, comida, ferramentas, e que você para e curte o visual, depois se diverte
descendo as trilhas ou estradas. Você sobe para merecer descer”.

© Specialized / Divulgação

Percepções de um conceito

O termo Enduro é originário de Endurance, que significa resistência, e esse é o seu grande diferencial em relação ao All Mountain. Pedro Cury, do portal pedal.com.br, avalia que “Enduro inicialmente surgiu como uma definição de um All Mountain mais agressivo, e de uns tempos para cá surgiram as competições”.

Mas a palavra que se relaciona de maneira mais íntima com o conceito é diversidade. Mesmo já incorporado como uma disciplina pela União Ciclística Internacional (UCI) desde outubro de 2013, suas características polivalentes são perceptíveis em todos os âmbitos. Mesmo uma competição de Enduro inclui recreação e descontração. Há trechos cronometrados e outros de deslocamento. Tem a adrenalina da descida, mas necessita de resistência e condicionamento físico para a subida. Exige técnica, mas também exige autossuficiência. Pode ser praticado nos Andes Chilenos, nos Alpes Franceses ou nas montanhas rochosas do Colorado. Nas colinas frias da serra catarinense ou na região serrana carioca.

Em meio a tantos termos utilizados no mountain biking, surgiram dúvidas quanto a classificação e definição de Enduro. Na Europa, segundo Fabio Zander, nosso correspondente no velho continente, “o Enduro é uma modalidade mais agressiva que o All Mountain, mas não necessariamente relacionada à competição. O pessoal pratica nas montanhas dos bike parks por aqui, em diversos níveis de dificuldade. Aqui, All Mountain é para uso mais leve, Enduro para uso que exige mais resistência”.

o termo enduro é originário de Endurance, que significa resistência, e esse é o seu grande diferencial em relação ao All Mountain.

© Rocky Mountain / Divulgação

Para outros, o Enduro é o próprio All Mountain. Estes criaram até uma nova sigla, o “AMEN”: All Mountain Enduro. Aqui no Brasil, Daniel Bender considera que hoje “o Enduro é a competição do All Mountain. É tudo o que você sempre fez com sua bicicleta, descobrindo novas trilhas, pedalando com amigos, divertindo-se nos Downhills, em um formato de ‘competição’ em que você tem que cuidar do seu equipamento, condicionamento físico, alimentação e hidratação. É um esporte diferente, com uma identidade própria”. Thiago Boaretto, atleta profissional de Enduro de Bertioga – SP, compartilha da definição de Bender. Ele considera que “o All Mountain é uma pedalada longa entre amigos ou até mesmo uma expedição. Já o Enduro é a modalidade competitiva do All Mountain, onde sua autossuficiência na trilha será testada, assim
como sua força e técnica. O Enduro tem o perfil que mais gosto do mountain bike, que é andar por horas de bicicleta entre amigos e fazer descidas cronometradas”.

Então quer dizer que praticar Enduro implica em competir? Na prática, nossa percepção se assemelha ao conceito europeu, colocando o Enduro como um pedal que exige mais resistência que no All Mountain, mas que não necessariamente seja uma competição. Apesar da bike ser praticamente a mesma, a diferença está na atitude do biker de buscar algo mais desafiador. Ronnie Kuter, de Presidente Getúlio – SC, também considera que o importante é se divertir e aproveitar ao máximo com os amigos. Segundo ele, “como apaixonado por bicicleta e todas as modalidades que envolvam as duas rodas, o contato com o Enduro foi amor ao primeiro desafio. Desde então, as aventuras são constantes, sempre em busca de algum point diferente, inexplorado e que exija mais habilidade, perícia e emoção. Para mim, o Enduro nada mais é do que uma maneira de se divertir com a bicicleta. Cada pedal é uma nova história cheia de imprevistos e singularidades. O desafio começa já ao encarar aquela subida longa, cheia de obstáculos, e depois vem a parte mais irada: a descida por meio de trilhas, pedras e árvores. No final, o que conta é que todos compartilhem momentos de muita adrenalina, com sangue ‘nozóio’, como dizemos”.

Enduro Brasil series Urubici – SC © Jonatha Junge

Um pedal que exige mais resistência que no All Mountain, mas que não necessariamente seja uma competição

Isso não significa que as competições não sejam importantes. Douglas Alexandre dos Santos, de São Paulo – SP, afirma que teve contato com o Enduro em provas. “Em 2012”, afirma ele, “pouco se falava de Enduro aqui no Brasil. Foi quando resolvi ir para o Chile e andar pelo Cerro Robles, a 2.222 m de altitude, na Cordilheira dos Andes.

Foi uma experiência incrível. Em 2013, Thiago Velardi realizou a primeira competição de Enduro do país e eu participei. Ter que subir para descer fez aumentar minha paixão pela bicicleta. Além disso, como o Enduro é realizado em regiões serranas, sempre conta com grande riqueza natural e paisagens de tirar o fôlego, e justamente esse contato maior com a natureza fez com que eu me apaixonasse pela modalidade. A união de bicicleta e montanha gera um prazer inexplicável”. Essa experiência você pode vivenciar, seja em uma competição, seja em um pedal recreativo. Por isso, nossa percepção de Enduro não apenas como uma modalidade competitiva, e sua diferenciação do All Mountain pela maior exigência de resistência.

Nossa dica aos ciclistas não-competitivos é: tenha a experiência do Enduro, ou seja, de realizar uma trilha em montanha, subindo e descendo com a mesma bike, em situações em que sua resistência seja testada e premiada com uma bela descida. Aventurese sem se preocupar com regras e normas. As categorizações podem fazê-lo perder a essência. Se o Enduro está acima ou abaixo dessa ou daquela disciplina, não importa. Pratique por que é divertido e pronto! É isso que você faz quando compra uma mountain bike pela primeira vez e não sabe exatamente como funcionam as regras, as especificações e as competições. Basicamente, este é o conceito de Enduro.

Eduardo Iru
“O Enduro é exatamente como nasceu o MTB: caras condicionados e pilhados para subir que curtiam a descida… Tenho visto cada vez mais pessoas praticando. Eu mesmo sempre que posso meto umas descidas para dar adrenalina.”

Pedro Cury
“Enduro inicialmente surgiu como uma definição de um All Mountain mais agressivo.”

Rafael Rocha
“Desde aquela época eu praticava Enduro, porém, chamávamos apenas de trilha de mountain bike.“

Daniel Bender
“O Enduro é aquele rolê que você faz com seus amigos nos finais de semana, que dura seis, oito horas.”

Fabio Zander / Alemanha
“O pessoal pratica nas montanhas dos bike parks por aqui, em diversos níveis de dificuldade.“

Thiago Boaretto
“O Enduro tem o perfil que mais gosto do mountain bike, que é andar por horas de bicicleta entre amigos e fazer descidas cronometradas.“

Ronnie Kuter
“O contato com o Enduro foi amor ao primeiro desafio… cada pedal é uma nova história cheia de imprevistos e singularidades.“

Nataniel Giacomozzi
“Eu praticava Enduro mesmo antes de conhecer… Enduro não é mole.“

Douglas Alexandre dos Santos
“A união de bicicleta e montanha gera um prazer inexplicável.”

A Bicicleta ideal

A bike de Enduro não é a melhor para aquele circuito de Cross-country, mas você vai conseguir pedalar bem lá. Ela também não será a melhor para um Downhill, mas certamente você pode descer bem com ela. O Enduro favorece pilotos que tenham uma gama de especialidades grande e a bicicleta segue a mesma lógica, atendendo a uma abrangência de situações muito grande. Além disso, se seu compromisso é com a diversão esta é a única bicicleta que você precisa ter em casa.

Em termos gerais, ela busca um equilíbrio para servir tanto aos trechos de descida longa quanto aos trechos de deslocamento e subida. Neste sentido, a bicicleta ideal seria uma full suspension com curso de cerca de 150 mm e opção de trava. Algumas regiões exigirão um curso maior, outras poderão ser tranquilamente vencidas com menos curso. A adaptação é que predomina como regra. É por isso também que, na bicicleta ideal, outro item característico é o canote do selim ajustável, já que durante uma pedalada de Enduro são exigidos diferentes configurações de altura do selim.

O perda de peso na bicicleta de Enduro não é mais importante do que seus recursos para aguentar todas as situações do pedal. Por isso, também neste quesito ela fica no meio termo entre as bikes de Cross-country e de Downhill, buscando um equilíbrio entre leveza e resistência. O ciclista usa equipamentos de segurança, como joelheira e capacete. Alguns ciclistas utilizam dois capacetes, sendo um fechado para as descidas e outro aberto para os deslocamentos de menor risco.

Mas o Enduro não se limita a uma bicicleta ajustável a todas as situações de montanha. Ele requer um ciclista flexível e autossustentável também, com o espírito aventureiro e resistente. As exigências técnicas, físicas e psicológicas serão diferentes a cada montanha, porque o Enduro sempre rende abordagens diferentes. A mochila nas costas virou um símbolo dessa flexibilidade e autossuficiência.

Mostramos algumas das características de uma bicicleta ideal, mas como a diversidade é uma companheira inseparável do Enduro, e o compromisso é com a aventura e a emoção, incentivamos que você se divirta com o que tiver em casa. Se não tiver uma full suspension, se não tiver mochila nas costas, se não tiver canote ajustável e nem souber qual é o curso de sua suspensão, saiba apenas que aquela montanha vista da janela ou da varanda está esperando você chegar ao seu topo e comemorar, não o primeiro lugar de um pódio, mas a superação de seus limites. O prêmio é a descida!

Aventure-se sem se preocupar com regras e normas. As categorizações podem fazê-lo perder a essência. Se o Enduro está acima ou abaixo dessa ou daquela disciplina, não importa. Pratique por que é divertido e pronto! A adaptação é que predomina como regra.

© Specialized / Divulgação

A bike do campeão

Nataniel Giacomozzi, catarinense de Ibirama – SC, sagrou-se campeão brasileiro de Enduro 2014. “Eu praticava Enduro mesmo antes de conhecer”, comenta, “pois nos meus treinos para Downhill eu subo pedalando e desço trilhas longas. Com o Enduro melhorei meu físico. Como o nome diz, Enduro não é mole. O piloto precisa estar muito preparado fi sicamente, como um piloto de Cross-country, e ter a técnica e explosão de um piloto de Downhill, além de boa memória e concentração para gravar todas as trilhas”. Sobre a experiência no Enduro Brasil Series, Nataniel afi rma que “ser o primeiro campeão brasileiro do Brasil Enduro Series foi demais. Um sonho realizado. As três etapas foram sensacionais, muito bem organizadas e com características diferentes. No Rio de Janeiro as especiais eram mais curtas e não tão técnicas; em Santa Catarina a subida foi inclinada e dura, com especiais alucinantes, um verdadeiro Downhill. E a etapa de São Paulo foi a prova que mais exigiu físico, com subidas longas e especiais com mais de 17 min de descida”.

  • As rodas são originais da bike, com largura interna média, que para meu peso e estilo funcionam perfeitamente bem. Estão calçadas em pneus razoavelmente leves, que funcionam bem em qualquer superfície e são compatíveis com a tecnologia sem câmaras.
  • O canote Rock Shox Reverb com 100 mm de curso é ajustável, permitindo que eu possa escolher a altura do banco durante a competição.
  • O quadro é pensado para buscar o melhor equilíbrio entre leveza e força sufi ciente para aguentar as descidas em trilhas extremas.
  • A relação Sram X01 possui uma coroa de 34 dentes assistida por uma guia de corrente para uma proteção extra e o já bem conhecido cassete 10-42, que auxilia muito nas subidas (42), mas ainda mantém uma boa velocidade final (10).
  • Utilizei 150 mm de curso de suspensão traseira e dianteira, grande o sufi ciente para ler os obstáculos, mas também efi ciente para subir as montanhas para a próxima especial. Tem a sensibilidade que eu preciso para suportar os estágios, mas com trava e baixo peso para economizar força nos deslocamentos.

Você sabia?

No Downhill, é comum que as descidas sejam realizadas na casa dos dois minutos. A pista de Balneário Camboriú – SC, por exemplo, que recebeu o Campeonato Brasileiro deste ano, tem 1.230 metros. Lucas Bertol, o campeão, completou o percurso em 02 min 15 s 810. No Enduro a descida é mais longa. O primeiro estágio cronometrado da etapa do Brasil Enduro Series em Campos do Jordão – SP tinha 5.340 metros e foi completado por Bernardo Cruz, o mais rápido na ocasião, em 10 min 16 s 864. Então, não se engane: Enduro não é um Cross-country ou um Downhill “meia-boca”. Ele tem suas próprias características!

Regras do Enduro, segundo a EMBA

A prova deve ter quatro ou mais estágios especiais, que são as tomadas de tempo em descidas cronometradas. Um piloto de cada vez efetua a descida, como no Downhill. Os trechos de ligação, que são o deslocamento até os pontos de largada dos trechos especiais, devem ser percorridos dentro de um tempo mínimo e não contam para a somatória final. O piloto deve ser autossuficiente, carregando ferramentas e itens de consumo sem uma equipe de apoio. Geralmente, os eventos do Enduro World Series são realizados em dois dias, mas também é possível realizar os quatro estágios especiais em um único dia. Ganha o piloto que, na somatória dos trechos especiais, tiver o menor tempo. Todas as especificações estão no link ‘rules’ (regras) do site enduroworldseries.com.

Enduro como modalidade esportiva

No dia 01º de outubro de 2013, a UCI adicionou o subcapítulo IV – Enduro Events, dentro do regulamento do mountain biking. Isto demonstra que a disciplina cresceu muito, especialmente de 2013 para cá, e também demonstra que a UCI quer aproveitar a onda de sucesso do Enduro. Porém, a Enduro Mountain Bike Association (EMBA), criada no outono de 2012, está na dianteira e dita as características dos eventos da modalidade. O crescimento do Enduro nos últimos anos se deve à essa associação, especialmente por ter unido as experiências dos maiores eventos de Enduro do mundo em um único circuito, o Enduro World Series. Para 2015, o circuito abrangeu oito eventos pelo mundo e a novidade é que a Oceania também será visitada pelos bikers: Nova Zelândia abre o calendário em 28 de março.

© Jonatha Junge

Enduro competitivo no Brasil

O Enduro esportivo estourou com a criação da EMBA em 2012, e em 2013 já aconteceram os primeiros eventos com foco competitivo de Enduro no Brasil. Segundo o portal Ride Enduro MTB (ridemtb.com.br), que também nasceu em 2013 com foco no novo esporte, o Montanhas Race Enduro, organizado por Thiago Velardi em Jundiaí – SP, teve sua primeira etapa em junho de 2013. Outras duas etapas do Montanhas Race aconteceram em Mairiporã – SP e Socorro – SP. Ainda com informações do portal, em 2013 também aconteceu o Serra All Mountain Series em terras cariocas, e outros pequenos eventos em Minas Gerais e cidades do interior paulista. Além disso, atletas brasileiros já participavam de etapas do Enduro World Series. Em 2014, foi organizado o Shimano Brasil Enduro Series, com três etapas: Itaipava – RJ, Urubici – SC e São Bernardo dos Campos – SP. Organizado por Daniel Bender, Théo Duarte e Dalcio Bianchini Filho, contou com a participação de atletas de renome do cenário brasileiro e teve como campeão na categoria masculina Nataniel Giacomozzi e na categoria feminina Beatriz Ferragi.