Assim como uma música bem orquestrada faz com seus ouvintes, a bicicleta harmoniza as pessoas e as cidades. Ela indica a possibilidade de um arranjo entre os ciclistas, pedestres, veículos e o meio urbano, tão necessário, urgente e belo. As ruas fazem as vezes das linhas da pauta ou pentagrama, por onde as notas musicais fazem ziguezague ou se debruçam. Tais notas são os ciclistas, com alturas e tons diferentes, mais fortes ou menos fortes, mais ou menos intensos, por mais ou menos tempo, surgindo daqui e dali e desaparecendo sem aviso, como os sons de um acorde. Há muito mais por compreender desta melodia cotidiana e urbana. Então, maestros, busquemos a harmonia. Bicicletas nos caminhos, sentidos aguçados e vamos rodar!

“B-I-C-I-C-L-E-T-A… Sou tua amiga bicicleta!” Com este enunciado, o grande compositor e músico brasileiro Toquinho, eterno companheiro de Vinicius de Moraes, declara a relação mais do que fraterna entre todos nós e a bicicleta, na canção de mesmo nome. Uma amizade tão poderosa e linda, descreve a letra, que nos leva a inúmeros lugares, pelos mais variados motivos, para que possamos adquirir as mais impressionantes experiências. É tão impossível ficar insensível à música quanto ficar insensível ao que resulta em nós, pedalar.

Ciclistas, não desafinem. Procuremos e persigamos a harmonia. Há lugar para todos os sons e há muitas composições a serem criadas.

Ao escutar esta canção novamente, depois de tantos anos, verifiquei que a poesia, simples ao entendimento e sonora aos ouvidos, esclarece inclusive que ao partir em nossa bicicleta temos o mundo sob nossos pés. Ora, que coisa mais poderosa, não é?! Busquei dissecar as partes que compõem a música para tentar, de maneira um pouco lírica, mas nem por isso menos objetiva, correlacioná-las, se possível, com nossas realidades de ciclistas. Vamos ao desafio. A música a ser tocada é a Mobilidade, um direito primaz de todo ser humano, e como tal, indissociável das sociedades. Não há como separar a música da vida, da mesma forma que não podemos compreender as sociedades sem admitir a mobilidade.

A melodia é a parte da música que nós cantamos, por assim dizer, o que difere uma música de outra, sua identidade. Equivaleria, referindo-me à metáfora que ouso construir, aos componentes da mobilidade, pedestres, veículos, traçados urbanos, perfis diferenciados de usuários de bicicleta, suas características identitárias, o que os distingue dos demais sujeitos do trânsito e o que faz que sejam reconhecidos entre os seus iguais.

O silêncio não é a negação da música, mas um de seus mais interessantes recursos.

Trazendo a melodia para o nosso estilo, seriam os usuários de bicicleta com fins de lazer, esporte, transporte, carga, serviços, tribos urbanas e lifestyle, ou todos eles juntos. Indo um pouco mais além na canção que escolhi para ilustrar este texto, reparei que até mesmo o ritmo da mesma traz à mente o diletante modo de rodar por prazer, seja no campo, na rua ou na beira do mar. Indistinta e indiscriminadamente. Quando me reporto ao ritmo, componente essencial da música, remeto à emergente potencialização de uma de nossas lutas diárias enquanto movimento social mundial: a consolidação do tráfego calmo em específicas partes das cidades.

Tal fato inibe ou mitiga a violência no trânsito que somos todos nós e que resulta, também, de nossas escolhas. A palavra ritmo, ainda, pode ser compreendida como o movimento regular que permite que algo flua, e sem ritmo, a música simplesmente não existe. O ritmo é a pulsação da música e indica movimento! Alguma relação com o trânsito e nossas bikes?

O compasso, por sua vez, seria entre outras palavras, a forma de dividir e inserir uma quantidade de notas dentro de uma determinada unidade de tempo, ritmado. Relacionando com nossa presença no trânsito, seria o mesmo que equacionar espaços e tempos por onde seria emancipador pedalar, livremente, sem riscos maiores e, o que é melhor, com o pensamento solto ao vento.

Não há como separar a música da vida, da mesma forma que não podemos compreender as sociedades sem admitir a mobilidade.

Merece avaliar que a música é feita de sons e de silêncio. Sim, o silêncio também faz parte. O silêncio não é a negação da música, mas um de seus mais interessantes recursos. É a sua moldura. Seria como o mobiliário urbano ou a paisagem construída, que muitas vezes esquecemos de observar devido nosso afã de chegar. O silêncio existe para contemplar os sons, todos eles. Nossa cidade existe para que a contemplemos enquanto a produzimos. Mas sons, silêncio, pulsação e divisão em compassos não estão soltos a esmo, de maneira inconsequente, desconexa ou irresponsável. Quando combinados, em proporções diferentes, causam um fenômeno dos mais impactantes quando o assunto é música: a harmonia!

A harmonia não pressupõe a extinção de um dos componentes da música pela prevalência de outro, ao contrário. Ela se dá quando todos os componentes coexistem, ainda que em um momentâneo desequilíbrio proporcional. Harmonizar é um exercício que requer paciência, habilidade em juntar ao mesmo tempo vários sons, tempos, silêncios, enfim, para tornar mais prazerosa a linda tarefa de ouvirmo-nos. Harmonizar, entre outros tantos aspectos, requer sensibilidade. Ao reunir vários sons simultaneamente, não se pode permitir que estejam desordenados, com certos volumes imperando sobre os demais, e principalmente, que ao tocá-los nada faça sentido.

A música existe para fazer sentido. Nossa metáfora também.

Quando dizemos, por vezes, que algo ou alguém desafinou, significa que perdemos a ordem, que nos perturbamos, que fugimos do caráter belo e bom da união dos sons em harmonia. Duro é que, ao desafinar, perde-se a essência da música, a descaracterizamos, e o resultado é dos piores para todos, é um desprazer. A sensação que deriva da desafinação é ruim e, por muito tempo, infelizmente, permanece como uma triste lembrança em nossos ouvidos. É certo, por outro lado, de que uma das sensações mais incríveis que experimentamos quando pedalamos é a de fazer parte de algo maior e bom. Sei que muitos companheiros de pedal que transitam nas cidades pelo Brasil irão reconhecer-se nesta afirmação.

Fazemos parte de uma obra musical cheia de emoção e que espera que nós, cada um e todos ao mesmo tempo, façamos a nossa parte ao fazer ouvir nossos sons na hora, lugar e contextos exatos, para o bem, para o prazer e para dar significado ao ir e voltar pedalando em paz.

Ciclistas, não desafinem. Procuremos e persigamos a harmonia. Há lugar para todos os sons e há muitas composições a serem criadas.

Queremos, fortemente, que todos os sons “ciclísticos” façam parte desta música que precisa ser composta, de preferência, harmonicamente, e que ao final possamos chamá-la pelo nome de Mobilidade, real e felizmente. Que ela faça sucesso, pelo bem de nossos ouvidos, almas, corpos e sonhos.