Da história e das histórias

É difícil estabelecer uma data precisa que marque o início das viagens de bicicleta no Brasil. Sempre existiu gente viajando de bicicleta. Pelos mais variados motivos. Porque é barato. Porque, às vezes, é a única opção.

   Mas quando Antônio Olinto voltou ao Brasil em 1996, depois de uma volta ao mundo pedalando, o “cicloturismo” começava a ganhar corpo como conceito. Informações começaram a ser organizadas com um fim específico. E compartilhadas. Imagine percorrer 34 países com a internet engatinhando, sem todas as facilidades digitais a que estamos acostumados nos tempos atuais.  

Trinta e três anos depois, Olinto e Rafaela lançam seu nono livro, um guia sobre a Serra do Espinhaço. São 1.200 km de trilhas mapeadas e planilhadas, de Diamantina, em Minas Gerais até a Chapada Diamantina, na Bahia. Na plateia, mais de cem pessoas dos mais diversos estados brasileiros reunidas com o objetivo de trocar experiências e dicas sobre viagens de bicicleta. As informações circulam, as trocas se dinamizam e os planos reivindicam seu lugar na esteira das realizações. O número de candidatos a aventureiros e desbravadores se potencializa. Definitivamente, não a mesma aventura do Olinto. E nem poderia. A que cabe e é legitima a cada um.

© Walter Magalhães

Encontro Nacional de Cicloturismo

Estamos na Serra da Mantiqueira. Um paraíso para quem gosta de esportes e atividades ao ar livre. Bem na divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. Um grupo de voluntários apaixonados se dedica na organização do décimo oitavo encontro nacional de cicloturismo. São dezoito anos de dedicação. Uma data importante. A maioridade com todas as vantagens e desvantagens.   

Palestras, lançamentos de livros, guias, trocas e pedaladas. A intersecção entre o turismo, a bicicleta e a sustentabilidade. Para todos os gostos. Das inspirações às práticas. Para chegar pedalando até o fim do mundo com segurança, que nunca será o mesmo do Guilherme Cavallari e suas Patagônias diversas e sedutoras, é conveniente saber um pouco de medicina de viagem e animais peçonhentos. Estava tudo lá.

Entretanto, a demonstração mais evidente dessa maioridade talvez seja a palestra da Eliana Garcia e do Léo Schmitz sobre “O Mínimo Impacto em viagens de bicicleta”. O avanço da prática no Brasil, especialmente quando realizada em grupo, atinge em cheio as comunidades pelo caminho. O modo de vida, as atividades econômicas e toda uma rede de relações tendem a se adaptar com as novas demandas. Outras cores. O passo fundamental para que as mudanças aconteçam da melhor maneira possível é refletir sobre a nossa postura e suas possíveis consequências. Estimular essa reflexão é um grande indicativo dessa maturidade.

© Walter Magalhães

Viajar é preciso. Viver não é preciso

Mais do que os lugares, são as histórias. As pessoas. Assim como nas três Patagônias abordadas pelo Guilherme na sua palestra. As lendas, os exploradores e a aventura. Cada qual compondo um imaginário e dando sentido. Segundo o dicionário de termos do IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), lugares “dizem respeito a um recorte espacial dotado de significação cultural e social expressos no tempo presente por meio da relação que pessoas e grupos estabelecem com ele”. Pâmela Marangoni e Daniel Guerra são grandes personagens de histórias que, apesar de terem o cenário e a geografia parecidos, são tão únicas e impressionantes quanto poderiam.

Daniel Guerra percorreu a América do Sul da Colômbia até Ushuaia pedalando. Um ano e meio. Muitas vezes pelo litoral. Além da bicicleta, era um apaixonado pelo surf. Pelo mar. Segundo o nome do seu projeto, Liber Bike, um apaixonado pela liberdade. Visitou parques nacionais, escalou vulcões, surfou, dançou salsa. Todos os lugares revistos pela perspectiva de um cara de trinta e poucos anos que resolveu largar a carreira em relações internacionais e explorar as possibilidades de uma vida longe do convencional que se apresentava. Assim que terminou a pedalada, o amor pelo mar e pelas viagens o levou para Ilha Bela. Se especializaria em navegação marítima. E assim foi feito. Na sua primeira grande viagem, foi contratado como tripulante de um veleiro inglês, capitaneado por um francês. Saiu de Salvador com destino aos Açores, em Portugal. O preço de um sonho caro demais. Surpresa. Em Cabo Verde, a polícia judiciária encontrou mais de uma tonelada de cocaína escondida no casco. Barca furada. Dez anos de cadeia e toda a liberdade da bicicleta amplificada e ressignificada de dentro e por dentro. Os lugares nunca seriam os mesmos.

© Walter Magalhães

 Assim como a Colômbia de Pâmela nunca seria a mesma de Daniel. Nem qualquer outro lugar. O machismo recorrente, tão presente na América Latina, impõe às mulheres dificuldades e planejamentos especiais. Ressaltar a coragem seria simplificar a necessidade de seguir em frente. Era necessário. Desde os quinze anos, quando começou a viajar de carona, inicialmente pelo Brasil. E aí, como tinha que ser na história que se construía, entre casar e comprar uma bicicleta, a segunda opção parecia a única. Com duzentos reais e uma sacola de calcinhas para vender no caminho, percorreu 14 países do México até Maracaju, no Mato Grosso do Sul. Como resposta ao assédio, aprendeu a gritar mais alto. Navegar é preciso. E assim, com o olhar de quem buscava a beleza, condenava o que não era belo a uma posição tão secundária que evidenciava os absurdos e ressaltava o que de fato importava.

© Walter Magalhães

Espectro de Brocken

Grandes viagens, independente da escala e da referência, promovem grandes mudanças. A sociedade contemporânea, tão fechada nos seus padrões, se impõe cruelmente a quem insiste em romper com suas estruturas. Daniel Guerra, André Fatini e Carol Emboava realizaram grandes viagens. A penúltima palestra do encontro abordava as dificuldades de se retornar para a vida cotidiana convencional após anos na estrada. As contradições da nossa sociedade de consumo ficam ainda mais evidentes.

Contra a tristeza, poesia. Apesar de que para fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza. E nem fui eu que disse isso. Carol Emboava pedalou por quatro anos. Voltou sem festa. A chegada, todo mundo que viaja sabe, não resume o caminho. Muito menos encerra a viagem. Quando o confronto entre o movimento e a inércia atingiu o máximo do insuportável, recorreu às montanhas. A mesma Serra da Mantiqueira que agora era testemunha do depoimento. Amanheceu com sua sombra refletida sobre as nuvens emoldurada por um halo colorido. O fenômeno conhecido como “Espectro de Brocken” é raro. Montanhistas experientes passam a vida nas montanhas sem conseguir presenciá-lo. Uma série de variáveis alinhadas convenientemente garante sua raridade. Somadas ao olhar em busca da beleza. O mesmo olhar da Pâmela, do Daniel, do André, do Guilherme, do Olinto. E dos outros. Os olhares inquietos e sempre em busca.    

© Walter Magalhães

A Fantástica Epopeia que não era

O que fica são as trocas. Facilitadas imensamente pela dedicação com que o Clube do Cicloturismo promove o encontro. Tantos encontros dentro de um, que parece pouco classificá-lo como o décimo oitavo. E as histórias que somam e inspiram. E eu podia até falar do meu livro, cujo lançamento encerrou esta edição. Mas nem saberia como. Ficaria engraçado. Prefiro terminar com uma frase de outro escritor. Muito maior que minhas expectativas. “Somos todo o passado, somos nosso sangue, somos as pessoas que vimos morrer, somos os livros que nos melhoraram, somos agradecidamente os outros” (Jorge Luís Borges).

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Clube de Cicloturismo do Brasil é uma entidade sem fins lucrativos que trabalha
desde 2001 pela difusão e divulgação da atividade no país. Saiba mais em www.clubedecicloturismo.com.br".