A mídia não valoriza a bicicleta como veículo de transporte ou modalidade esportiva, mas alguns ciclistas também se esquecem da magrela.

A mídia, como um todo, procura falar muito sobre sustentabilidade, igualdade e qualidade de vida, contudo, poucas vezes relaciona a bicicleta como possibilidade de mudança.

Recentemente, a Revista Veja, por exemplo, publicou uma matéria com 25 razões para sermos mais otimistas em 2013. Uma delas é a estreia do carro elétrico Toyota Prius. Até 2012, apenas três modelos de carros elétricos existiam no Brasil, que venderam pouco mais de 300 unidades. O Prius chega ao país no valor de R$ 120 mil, e é apresentado como um motivo de otimismo para o ambiente.

De fato, em termos ambientais, é um avanço. Porém, o Prius continuará sendo um carro nas ruas afetando a mobilidade urbana. E, diga-se de passagem, um carro para poucos! Nada se falou da tendência em retomar o uso da bicicleta, um veículo barato e sustentável que apresenta um real motivo de otimismo, tanto em questões ambientais como para a mobilidade.

Vemos cada vez mais a bicicleta inserida no contexto urbano. Grandes empresas, como bancos e outras organizações, veiculam anúncios em que aparecem bicicletas, embora geralmente no contexto de lazer. A bicicleta como meio de transporte ainda sofre um certo desprezo da mídia, mesmo notando-se uma crescente acolhida pela população. Há várias teorias sobre esse desprezo, como a influência de grandes corporações do setor automotivo e a cultura do carro, que relaciona o automóvel a sucesso e status.

Na questão esportiva, o futebol é de longe o esporte mais aclamado e popular do país e de boa parte do mundo. A mídia, logicamente, dá maior destaque para essa modalidade. Uma demonstração disso aconteceu no programa Globo Esporte. O jornalista Tiago Leifert, depois de apresentar o caso de doping de Lance Armstrong, disse: “vamos falar de esporte de verdade agora, vamos falar do nosso futebol”, e partiu para os assuntos do campeonato paulista. Muitos ciclistas interpretaram que Tiago menosprezou o ciclismo, enquanto o apresentador se defende dizendo que ele se referiu ao fato do doping ser uma mentira.

Se a mídia não dá a devida atenção à bicicleta, cabe um lembrete: os ciclistas também não podem se esquecer da magrela. É bonito ver como o movimento é forte e unido, como os ciclistas criam empatia uns pelos outros, se ajudam e buscam soluções que beneficiem a todos. O termo ciclista passou a se referir a pessoas que defendem uma causa e um estilo de vida. Mas isso deve ser feito enaltecendo as virtudes do uso desse modal, e não assumindo atitudes ofensivas e desrespeitosas com quem, por qualquer motivo, não compartilha da mesma filosofia. Se Tiago Leifert foi infeliz na sua colocação, por exemplo, publicar mensagens de xingamentos nas redes sociais contra ele também é uma ação infeliz e não contribui em nada para a popularização e acolhida da bicicleta. Só aumenta a distância entre a bike e outros modais de transporte e esporte. É uma atitude de quem também se esqueceu da bicicleta.

Um exemplo de resposta produtiva e inteligente dada a Tiago foi o vídeo produzido pelo piloto Renato Rezende, do Bicicross, convidando-o a conhecer um pouco melhor a modalidade, sem deixar de elogiar o trabalho que o Tiago tem feito, e que realmente tem agradado a muitos.

A ausência do ciclismo nos programas esportivos também se deve ao despreparo dos jornalistas com relação à modalidade. Quando é transmitido algum evento, geralmente precisa recorrer a comentaristas especializados. Os “outros esportes”, categoria que inclui tudo que não seja futebol, geralmente só são lembrados em casos extremos e sensacionalistas, como nesse caso do doping.

Por fim, o caso do doping também revela como, às vezes, esquecemo-nos da bicicleta. É correto punir Armstrong, de maneira que os demais ciclistas tenham receio e não usem meios ilícitos para levar vantagem. Muitos homens e mulheres, idealizando grandes personalidades como Armstrong, buscam, sem apoio e sem infraestrutura, treinar e ainda conciliar sua vida de atleta com o trabalho, família etc. Tanto esforço para, de repente, ver a história de um herói se diluir e manchar o esporte que praticam.

Entretanto, será que o pelotão contra o qual Lance corria estava limpo? Com todos na mesma condição, será que ele não teria sido tão bom quanto foi? Quem usa a bike como lazer, como meio de transporte, nem precisa se envolver nessa polêmica, mas na questão da competição, as exigências são mais cruéis.

Acreditamos que a história esportiva de Lance fica abalada, mas ele não cometeu apenas erros. Seu exemplo de luta contra o câncer foi comovente, a vitória foi inspiradora. O ato de iniciar a Fundação Lance Armstrong foi nobre e continua a ajudar inúmeras pessoas. Sua história de vida e sucesso no esporte contribuíram para o ciclismo, antes de o doping vir à tona. Quantas pessoas se espelharam nele para começar a pedalar? Isso não se desfaz agora. Se for para crucificar os culpados pelo doping, há muito mais envolvidos do que apenas os atletas, que são a ponta final do problema. Entre tanta discussão e controvérsia, o que não podemos fazer é esquecer do principal: a bicicleta.