Parado na sinaleira, acompanhei aquele menino magrinho, cabelos esvoaçantes, camisa xadrez, calça curta, meias brancas e sapato escolar passando acelerado. A familiaridade dos gestos me chamou a atenção, aliada à condução enérgica, meio acrobática, que fazia da bicicletinha vermelha, provavelmente uma nave a caminho dos confins do universo. Num lampejo, nossos olhares cruzaram e pude enxergar no dele o meu passado de aventuras em desbravadoras conquistas territoriais.

Os tempos eram outros, outros os sonhos, cuidados então, inigualáveis, mas os espaços seguem iguais. Quando começamos a sair de casa, crianças, somos como aventureiros descobrindo novos mundos. A cada terreno vizinho e esquina alcançada, mistura da audácia com a conquista da autonomia, fazendo-nos pouco a pouco donos das rotas e rumos.

Lembro-me perfeitamente: primeiros dias andando na rua, duma esquina à outra; em pouco tempo, a volta na quadra e… Nossa! Quanta coisa nova! Entre passeios com a família pelas praças da cidade, cada vez mais estendidas as voltas ficavam, não se resumindo ao alcance dos pais – sem saberem, eu já beirava as calçadas visando “o outro lado” das ruas. E assim iriam as quadras, os bairros, as cidades…

Passados anos, em sala de aula veio a conceituação da sociedade, a evolução dos círculos concêntricos, limitadores, que nos rodeiam desde muito cedo. O perímetro do berço, as paredes do quarto, os muros do terreno, as esquinas da rua, os quarteirões do bairro e por aí vai. Mostraram-me, e nunca esqueci, que a construímos nesse transpassar de círculos, ultrapassar de limites familiares, até chegarmos ao espaço comum a todos. E, enquanto infantes, tudo observávamos e sabíamos do nosso entorno.

Velhos tempos, antigas posturas. Hoje vivemos no mundo do “um segundo”, onde tudo é urgente e não se concebe contemplar, apenas percorrer. Estamos neuróticos, vivemos com pressa, desconhecemos os vizinhos, abominamos a espera, tornamos linear o espaço ao nosso redor. Pior: linear e desconhecido. Procuramos as saídas para um ritmo de vida desumano, ambientes desumanos e desumanas emoções. Tudo converge para um nada.

Somos capazes de reverter processos destrutivos, repensar modos de vida, reciclar velhos conceitos. Estamos no limiar duma época de isolamento social – sim, vivemos isoladamente em sociedade, agora virtual! – e precisamos nos reambientar em nossas próprias cidades.

Das mirabolantes e fantásticas até as mais factíveis possibilidades, encontramos numa máquina absurdamente simples os meios para resgate do ambiente, das memórias, da vida e de nós mesmos. Máquina que nos insere novamente naqueles círculos que transpusemos e que pode nos levar a muitos outros, até mesmo inusitados.

O menino se foi, levado pela emoção da aventura e fluidez da juventude. Amarela o sinal, motores roncam ao meu lado.

Despertando do passeio pelas lembranças, ajeito-me no selim, seguro firme o guidão e acelero em vigorosas pedaladas, enérgico, meio acrobático. Mentalmente agradeço a primeira bicicleta, aquela, vermelhinha… que me levou a transpor tantos círculos, que me socializou e mostrou a vida em doses vivíveis.

E sigo adiante, saboreando o caminho como não fazia há tempos, redescobrindo o que nunca havia visto nesse redor, feliz por ter cruzado comigo mesmo naquela esquina e mais ainda por ter resgatado aquele menino dentro de mim.