O cicloturismo é uma opção para quem quer viajar e desestressar durante a pandemia.

Por isso, o Circuito Vale Europeu Catarinense lança o selo Vale a Pena Proteger para garantir a segurança dos ciclistas. A empresa The Bike Brasil, criada no início da quarentena em Balneário Camboriú (SC), aposta no segmento e planeja mais de 30 cicloviagens pelo Brasil até abril de 2021.

Munidos de álcool em gel e máscara, ciclistas estão ganhando os tradicionais circuitos de cicloturismo catarinense, como Vale Europeu, Araucárias e Costa Verde e Mar. Sempre em pequenos grupos, o que já se tornou uma nova regra na pandemia, eles garantem que o retorno às cicloviagens, após meses de quarentena, é ainda cercado de cuidados.

Elô Correia, 60 anos, moradora de Jericoacara (CE) e ciclista desde os 20 anos, diz que deixar de pedalar na pandemia foi “desesperador”. Após sete meses sem sair de casa, aventurou-se a fazer, no final de setembro, o Circuito Vale Europeu, que tem início em Timbó (SC), com um grupo de amigos e o apoio da The Bike Brasil. “Foi um verdadeiro pânico me preparar para essa viagem. O que me deixava mais segura era saber que o risco maior seria tomar o avião, mas que durante a cicloviagem eu estaria em contato apenas com a natureza e as sete pessoas do grupo, com todos os cuidados possíveis, como máscara, álcool em gel e distanciamento. Isso me incentivou a vencer o medo e a trabalhar o emocional. Nunca tive a experiência de ficar trancada sete meses dentro de casa”, relata.

Já a ciclista cearense Luciene Maria de Vasconcelos, conhecida como Branca, 51 anos, é considerada integrante do grupo de risco devido à diabetes. Ela também pedalou o Circuito Vale Europeu e, apesar dos cuidados com as taxas de glicose e alimentação controlada durante o pedal, afirma ter se sentido em total segurança, alegria e felicidade por ter “voltado ao mundo normal”. “Sentia uma sensação de isolamento por não ver as pessoas. Agora, estou vivendo um momento libertador em meio à natureza”, descreve. Para quem tem algum problema de saúde, ela orienta especialmente escolher bem a operadora de cicloturismo que dará apoio à viagem e aos integrantes do grupo.    

Os detalhes para sentir-se seguro

Élida Cristina Zucchini Martins, 29 anos, turismóloga e guia de trekking e cicloviagens há nove anos, conta que ficou seis meses sem pedalar. Guiava um grupo de ciclistas pela região da Toscana com a operadora The Bike Trips quando teve início a pandemia na Europa. “Tivemos que sair da Itália por causa do fechamento das fronteiras, fomos para a região da Baviera, na Alemanha, e depois para a Suíça, onde peguei o início do lockdown em Zurique. Vi o Exército em aeroportos e nas ruas controlando o fluxo de pessoas. Foram dias muito tensos. Aquela experiência de não poder circular na rua, não saber onde dormir e nem quando poderia voltar ao Brasil me fez ter muita calma e ser muito rigorosa nos cuidados com a pandemia. Cheguei a ficar quatro meses sem sair de casa”, recorda.

Élida, bem como toda a equipe da empresa, teve que adiar um calendário de cicloviagens até março de 2021 que incluía estar em 17 países com vários grupos. Como sofreu um edema pulmonar por altitude, redobrou os cuidados com a saúde. Contratada pela The Bike Brasil para guiar grupos de cicloturismo no Vale Europeu e na cidade de Capitólio, em Minas Gerais, Élida é responsável pelo cumprimento de um novo e rigoroso protocolo que visa garantir a segurança dos cicloturistas durante a pandemia. Ela enumera:   

1 – Início do Circuito Vale Europeu na cidade de Timbó, maior cidade do Circuito, em hotel bem orientado para receber os turistas nesse momento. A partir de então, o grupo hospeda-se apenas em pequenos hotéis e pousadas, com atendimento exclusivo para os participantes.

2 – Redução das possibilidades de contato dos ciclistas com moradores locais, evitando entrar em residências e até mesmo mercados. Pequenas compras são feitas por um dos responsáveis da equipe de apoio.

3 – Uso de máscara ao entrar nas cidades e estabelecimentos. Élida explica que durante o percurso não é possível pedalar de máscara, já que a altimetria é muito forte e requer esforço redobrado, mas as regras sanitárias municipais devem ser cumpridas por todos os integrantes.

4 – Durante os lanches e piqueniques, apenas a equipe cozinha, evitando o contato do grupo com os alimentos. Máscaras e álcool em gel são de uso obrigatório.

4 – As refeições são feitas em locais com poucas pessoas, de preferência apenas para o grupo.

5 – Os grupos são pequenos e, de preferência, de familiares e amigos. “Em geral, guio grupos de 20 a 30 ciclistas, mas agora estamos pedalando em nove pessoas, incluindo as duas guias”. Se possível, Élida recomenda conhecer com quem se está viajando, mas, em caso de grupos abertos, uma ficha médica e um termo de responsabilidade assinado pelos ciclistas buscam garantir que todos estejam saudáveis e sem contato com o coronavírus. “Todos esperamos muito tempo para a situação melhorar, não é hora de descuidar”, explica.

Ela reforça, ainda, os cuidados para que os cicllistas não levem o vírus para a comunidade local. “Recomendamos aos cicloviajantes ter muito respeito com os moradores. Se vemos que a comunidade não se sente à vontade para nos receber, não vamos. Escolhemos destinos abertos aos visitantes, pois muitos povoados não dispõem de infraestrutura médica. Não podemos pensar apenas em nosso divertimento”, alerta.

Élida afirma que, durante a pandemia, pretende guiar poucos grupos e evitar feriados prolongados como Réveillon e Carnaval. “Ainda estou cautelosa nessa retomada, apesar dos pedidos”, explica.  

Moradores recebem ciclistas durante a pandemia

O Circuito Vale Europeu tem a característica de incluir em suas paradas pequenos municípios como Rio dos Cedros, de 10 mil habitantes e origem germânica. Por ali, a hospedagem dos ciclistas é feita também por moradores como Dona Magali Ehat, que há cinco anos deixou as profissões de bancária e professora para dedicar-se ao pequeno hostel em sua própria casa.

“Quando chegou a pandemia fiquei muito assustada porque dependo do movimento dos ciclistas. Os três primeiros meses foram muito difíceis, mas grupos de amigos e de familiares começaram a se hospedar. Chegavam ciclistas de Blumenau, que pedalavam mais de 100 km até Rio dos Cedros, dormiam uma noite e retornavam. Então continuei trabalhando, mas com todas as restrições”, relata.

Dona Magali cuida sozinha da hospedagem e conta que abraçar os viajantes, conversar, jogar baralho ou tomar um vinho têm sido as grandes perdas da pandemia. “Essa é a parte difícil. De resto, não fui muito afetada e consegui me manter, apesar da redução de 90% na frequência de ciclistas. Rio dos Cedros não registrou casos de Covid-19 e nenhum amigo ou familiar ficou doente. Mas tomo muitos cuidados: higenizo toda a casa, especialmente os quartos, usamos máscara, recebo um pequeno grupo, fico três dias fechada para a limpeza completa e mantemos distância. Fui aprendendo todas as medidas sanitárias”, explica.

Segundo Dona Magali, a maioria das pousadas no Vale Europeu fechou por cinco a seis meses e a pandemia causou prejuízos a muitos estabelecimentos. Cidades como Indaial, Timbó e Pomerode ficaram fechadas. Com isso, os cicloturistas não conseguiam fazer todo o circuito. Somente os capazes de pedalar mais de 100 km por dia se aventuravam, pois apenas os municípios menores estavam hospedando pequenos grupos em algumas pousadas de moradores. “Acudíamos só os ciclistas que pedalavam sozinhos ou em dupla. A retomada está sendo devagar, sem aglomeração. Esse é o primeiro grupo que recebo”, diz Dona Magali.  


Como o Vale Europeu se preparou para a retomada do cicloturismo

Primeiro circuito de cicloturismo devidamente demarcado e sinalizado no Brasil, o Vale Europeu, com cerca de 300 km, pode ser percorrido em até sete dias e passa por nove municípios. Arlete Regilene Scoz, gestora de cultura, esporte e turismo no Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí, tem a função de garantir a sinalização dos roteiros de cicloturismo e caminhada, produzir material de orientação e informação turística, assim como desenvolver roteiros para turismo de aventura, cultural, gastronômico e de natureza.

Segundo Arlete, cerca de 150 ciclistas percorrem o Vale Europeu mensalmente. Todos se cadastram e retiram o certificado de conclusão do percurso. Após a queda na frequência, ela percebe o retorno dos cicloturistas à região. Para isso, estão implantando um selo de proteção ao turismo para garantir a saúde e o atendimento dos que praticam a atividade e também das equipes de receptivo.

O selo Vale Muito Proteger será disponibilizado para todo o segmento de turismo, produtos agrícolas e cultural. “Os atrativos que aderirem ao programa vão garantir a sustentabilidade de todos os setores que fazem do Vale Europeu Catarinense um maravilhoso destino para se conhecer”, aposta.

O programa tem início com a sensibilização para a higienização dos espaços e respeito aos protocolos de cuidados sanitários, como uso da máscara, respeito com o outro e empatia com a causa, de forma a prevenir, controlar, reduzir e eliminar riscos que possam comprometer a saúde humana e do meio ambiente.

Aos cicloturistas que pretendem realizar o circuito de forma autoguiada, Arlete recomenda que reservem as hospedagens com antecedência. “Priorizamos o turista em todos os atendimentos. Temos uma variedade de atrativos, museus que guardam a história dos antepassados, vivências na natureza, aventuras no rafting, rapel, tirolesas, canionismo e uma farta gastronomia regada a um ótimo vinho e cervejas artesanais, além de muita história e conhecimento para apresentar”, ressalta.

O que muda no cicloturismo

O novo formato das cicloviagens em uma pandemia envolve não apenas grupos pequenos, muitas vezes apenas um casal, mas todos os estabelecimentos parceiros precisam estar abertos à possibilidade de remarcação, cancelamento e devolução do dinheiro.

“Essa passou a ser a maneira que eu vi de uma agência de viagens conseguir vender algo no Brasil. Há uma insegurança muito grande dos cicloturistas. E se cancelarem meu voo, se a pandemia fechar a região? Por isso, preciso de todos os parceiros unidos nessa situação. No Vale Europeu, todos toparam. Até agora ninguém precisou desistir, mas, se fosse preciso, os valores seriam devolvidos”, explica Fernando Braga, sócio da The Bike Brasil.

Sobre os grupos, a empresa afirma atender no máximo 14 pessoas. “Pode parecer muito, mas não chega a ser uma aglomeração. Buscamos transfers e locais que nos atendam exclusivamente. Não misturamos o grupo com mais ninguém.  O carro de apoio é sempre desinfetado, assim como as caixas de bebidas e comidas. Aliado a isso, tem o fato de estarmos na natureza e no ar puro, com nosso pequeno grupo, nos protegendo”.

O roteiro também sofreu mudanças com a necessidade de distanciamento social. “As pessoas gostavam de chegar cedo do pedal para conhecer a cidade. Nesse momento não é possível. Mexemos nos roteiros para que os cicloturistas fiquem o maior tempo possível na natureza, evitando conversar com outras pessoas, ir a restaurantes, de modo a não trazer o vírus para o grupo. Saímos literalmente apenas para pedalar”, esclarece. Perde-se um pouco de liberdade, pondera Braga, mas a solução encontrada foi buscar locais simples, organizados e limpos.

Além de oferecer kit com álcool em gel e máscara, a equipe de apoio fica atenta ao cumprimento das regras sanitárias. “A tendência das pessoas é relaxar após tantos meses presas dentro de casa.  Então, nosso papel é relembrar a importância do uso da máscara. Leis municipais precisam ser respeitadas”, afirma.

Com todos esses cuidados e a nova forma de cicloviajar, Fernando Braga convida todos a desbravarem o Brasil de bicicleta. “Você tem algum lugar que queira conhecer? Passe a ideia pra gente. Vamos mapear e levar toda a estrutura. O Brasil tem lugares fantásticos, paisagens incríveis. Vamos mergulhar de bicicleta na natureza e fugir ao máximo da pandemia”.


The Bike Brasil lança modelo de franquia para cicloviagens e inaugura roteiros na pandemia

Fernando Braga, 40 anos, peregrino, empresário e ciclista, tinha o projeto da The Bike Brasil engavetado há dois anos. Radicado em Santiago de Compostela, na Espanha, onde é proprietário da operadora The Bike Trips, especializada em cicloviagens no Caminho de Santiago e outros destinos europeus, como Itália, França e Alemanha, foi na pandemia que ele viu a oportunidade de lançar o projeto que envolve uma agência de viagens para cicloturismo em todo o território nacional, locação de bicicletas para grupos e oficina especializada padrão Park Tool (famosa marca americana que criou escolas no mundo todo para ensinar mecânica profissional de bicicleta).

“A intenção é que a The Bike Brasil vire uma rede de franquia para empresários apaixonados pelo ciclismo e interessados no segmento de pacotes de cicloturismo. Seremos uma central de criação de roteiros por todo o Brasil. Teremos um mailing de produtos com todas as agências interligadas”, explica o empresário.

O laboratório da The Bike Brasil nasceu em Balneário Camboriú (SC), com a parceria entre Fernando Braga e os sócios Marcelo Godim e Daniel Lheritier, do grupo de pedal Pá Pum Bike Team. “Com a pandemia e a Europa fechada, tive a oportunidade de ficar no Brasil. Hoje, a agência está estruturada e recebendo os primeiros clientes. Já guiamos grupos pelo Vale Europeu, Costa Verde e Mar e a recém-inaugurada Rota Romântica, no Rio Grande do Sul. Até abril de 2021, temos planejadas mais de 30 cicloviagens. Estão prontos para aquisição também roteiros na cidade de Furnas (sul de Minas Gerais), Fortaleza a Jericoacara, Bonito (MS) e vamos iniciar projeto no Jalapão (TO).   

A repórter e ciclista Ana Cristina Sampaio viajou ao Circuito Vale Europeu a convite da The Bike Brasil.

@anacris_sampaio