Brasília, Lábrea, Transamazônica, Cabedelo, Brasília.

© Benhur Luiz Maieron

No projeto de percorrer a rodovia BR-230 Transamazônica, de bicicleta, havia três deslocamentos distintos, em sequência: de Brasília a Lábrea (AM), de Lábrea a Cabedelo (PB), cidades localizadas nos extremos oeste e leste da Transamazônica, e de Cabedelo a Brasília, fechando o círculo. No entanto, uma malária contraída no meio do caminho provocou a interrupção da viagem por quase um ano.


Dados pessoais:  Benhur Luiz Maieron, 66 anos (atualmente), natural de Sobradinho, RS, capitão reformado do Exército, casado, dois filhos, residente em Brasília desde 1997. Apaixonado por estradas, conhece todos os estados brasileiros e quase todos os países fronteiriços, utilizando outros meios de transporte, em especial a motocicleta, sua grande paixão.


A partida, em Brasília, ocorreu em 2 de agosto de 2019, com um itinerário padrão de deslocamento: Barra do Garças, Cuiabá, Cáceres, Comodoro, Vilhena, Porto Velho, Humaitá e Lábrea, onde a Transamazônica termina. No primeiro dia de setembro, início do deslocamento pela maior rodovia brasileira no sentido leste-oeste. Dentro do Amazonas, a rodovia é de terra, com extensão de 831 km, exceto em alguns trechos urbanos asfaltados, até chegar na divisa do Pará.

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Plana e praticamente sem curvas, é boa de pedalar, com abundância de água em toda a extensão. O grande contratempo é a poeira levantada pelos veículos, que paira no ar durante muito tempo. No Pará, a estrada muda totalmente, tornando-se extremamente irregular, com aclives e declives íngremes que parecem não ter fim. O pior trecho está entre Jacareacanga e Itaituba, um verdadeiro suplício, onde caminhões carregados não conseguem vencer as ribanceiras.

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Era impossível subir pedalando ou descer em velocidade, devido ao perigo do cascalho solto, pois o revestimento é de piçarra. Nos raros trechos relativamente planos também se exige cautela. Assim, a média diária de deslocamento é muito baixa. Com uma semana dentro do Pará, começam os mal-estares que foram se intensificando com o passar dos dias. O motivo eu só tomaria conhecimento ao interromper a viagem e regressar para Brasília, dias depois.

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Duas semanas antes de chegar a Uruará, dia 2 de outubro, vivi um verdadeiro infortúnio: falta de apetite, dificuldade para evacuar, dor de cabeça, tontura, fadiga extrema, tremores, pés inchados, furúnculo nas nádegas, hemorroidas e 11 kg de peso a menos. Na cidade, descansei por alguns dias e fiz exames médicos no hospital municipal. Com os resultados em mãos, que não indicavam a real causa dos sintomas, medicamentos receitados e sugestão de cirurgia para uma das patologias, a continuidade da viagem tornou-se totalmente inviável. E a triste decisão de encerrar a viagem foi tomada, após 67 dias na estrada e 4.618 km pedalados desde Brasília. A frustração foi amenizada um pouco pelo fato de terem sido percorridos mais de 90% do trecho de terra da Transamazônica, de quase 1.600 km.

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Para não pagar excesso de bagagem no voo de retorno para Brasília, quase todo o material, como bagageiro, ferramentas, material de acampamento etc., foi doado às pessoas da cidade. A bicicleta foi encaixotada e providenciei uma passagem aérea para o trecho Santarém/Brasília. Viajei de ônibus de Uruará a Santarém num dia e no outro peguei o voo de regresso para casa. Em Brasília, fiquei internado por seis dias no Hospital das Forças Armadas, sendo dois em UTI, onde se descobriu, por agentes da Vigilância Epidemiológica do DF, a doença que provocou todo o contratempo: malária. Depois de quase um mês de tratamento com cloroquina e primaquina, mais dois meses de acompanhamento, enfim a boa notícia: curado. A ideia inicial seria a “aposentadoria” no ciclismo de longa distância. Mas, meses depois, pedalando com o vigor de um adolescente numa rua próxima de casa, o “vírus” do inconformismo pela desistência falou mais alto e imediatamente a decisão de concluir o percurso foi tomada. A bicicleta foi reequipada com novos alforjes, bagageiros e outros itens, desmontada e encaixotada para o voo Brasília/Santarém e para o trajeto de ônibus Santarém/Uruará (PA).

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No reinício da viagem ciclística, em 18 de agosto de 2020, tive a companhia do meu filho Douglas, que comprou em Uruará uma bicicleta para fazer o percurso de terra de 106 km até Medicilândia (PA). Daí pra frente, segui sozinho. Nesta fase, todos os pernoites foram em hotéis, pousadas ou dormitórios, ao contrário da anterior (2019), em que colchonete ou rede foram utilizados em postos de combustível, casas (habitadas ou abandonadas), reservas indígenas ou varandas de bares, restaurantes e comércios.

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Em 25 de setembro de 2020, às 11h, cheguei em Cabedelo (PB), para a tradicional foto junto à placa do Km 0: “RODOVIA BR-230 – AQUI COMEÇA A TRANSAMAZÔNICA”. Assim, eu realizava o velho sonho de percorrer de bicicleta, de ponta a ponta, essa mítica rodovia, mas tão pouco conhecida. Nela, foram percorridos 4.433 km, sendo 1.569 km de terra, em 65 dias efetivamente pedalados, no ano passado e neste.

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Terminada a etapa principal, restava o retorno para casa. Tive dois dias de descanso em João Pessoa, com apoio da minha sobrinha Márcia Barbosa. E fui novamente pra estrada, agora em percurso já conhecido de outras viagens de carro ou moto: Caruaru, Garanhuns, Tucano, Seabra, Ibotirama, Correntina, Posse, Formosa e Brasília, com chegada dia 21 de outubro de 2020. Desde o início, no ano passado, foram percorridos 10.076 km em 118 dias efetivamente pedalados, e 28 pneus furados. Durante todos esses meses na estrada, a alimentação foi somente aquela encontrada no trecho.

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A rodovia

A BR-230 Transamazônica se estende de Cabedelo (PB) a Lábrea (AM), numa extensão de 4.260 km. Em números aproximados, tem 2.600 km asfaltados e 1.660 km de terra. No trecho de terra, praticamente inexiste tráfego de veículos no período mais chuvoso (meses próximos a fevereiro). Em compensação, no período menos chuvoso (meses próximos a agosto), a poeira é constante, e em alguns trechos se formam atoleiros de pó chamados “puaca”, que derrubam ciclistas/motociclistas como se lama fosse.  A construção da rodovia na Região Amazônica começou em 1970 e a inauguração aconteceu em agosto de 1972, com a presença do presidente Médici. Ainda são utilizadas balsas na travessia de cinco rios. Os trechos dela no Nordeste já existiam desde longa data, havendo sobreposição de designação em alguns trechos, como, por exemplo, a BR-230 e BR-101 ocupando o mesmo leito. Atravessa sete estados: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.

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A ocupação da rodovia

Por desconhecimento, muitos acreditam ser a Transamazônica uma trilha abandonada que liga “o nada a lugar nenhum”; outros, que ela se transformou num deserto, com suas margens devastadas e todo ano gerando imensos incêndios. Nada disso! A rodovia, em seu trecho de terra entre Lábrea (AM) e Medicilândia (PA), com extensão aproximada de 1.600 km, está revestida de piçarra e sua conservação, exceto em poucos quilômetros, pode ser considerada excelente, com várias equipes fazendo a manutenção. Seus ocupantes são provenientes de diversos estados e se dedicam a atividades variadas, como transporte, comércio, agricultura, pecuária, extração de madeira, garimpo e pesca. Cidades a partir de 20 mil habitantes são consideradas “grandes”, como Lábrea, Humaitá, Apuí, Jacareacanga, Itaituba e Uruará, todas dentro do trecho de terra. Existem muitos povoados, vilas ou habitações isoladas, perto uns dos outros, em torno de 5 a 10 km. Não há longos trechos desabitados, exceto dentro do Parque Nacional, que é área de preservação. As fazendas são raras e pequenas, pouco maiores que sítios, e no período chuvoso a atividade agrícola é pouca ou nenhuma. Na parte asfaltada, entre Cabedelo (PB) e Medicilândia (PA), há várias cidades de grande porte, como Marabá, Estreito, Carolina, Balsas, Floriano, Picos, Pombal, Patos, Campina Grande e João Pessoa.

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Índios

A Transamazônica atravessa a reserva indígena da etnia Tenharim, num trecho de 58 km, a meio caminho entre Humaitá e Apuí (AM). Esses índios frequentaram muito os noticiários de anos atrás devido a um ilegal e extorsivo pedágio montado por eles. Em 2013, assassinaram três pessoas inocentes, um vendedor, um professor e um funcionário da Eletrobrás, acusados de terem atropelado um índio encontrado morto na estrada. Num ritual místico de pajelança, um pajé teve a “visão” de que um carro preto fora o causador do atropelamento. Para azar dos três, o carro deles, o primeiro a passar pela aldeia após a pajelança, era preto. O comentário geral, no entanto, é que o índio, bêbado, caiu da motocicleta que pilotava. Houve revolta da população, casas e prédios de apoio a indígenas foram incendiados e o Governo Federal teve que intervir. O pedágio foi suspenso. Durante a travessia pela reserva, não tive problemas. Conversei com alguns índios e até comprei cerveja numa pequena mercearia deles, em uma das aldeias. O segundo contato com indígenas aconteceu após cruzar a divisa do Amazonas com o Pará. Eu recebi informações que no local havia um bar onde poderia pernoitar. Não havia nada. Seguindo em frente, já noite, escutei o barulho de um motor estacionário próximo ao rio Muiçuzão, mas não vi luzes. Depois de certa hesitação, fui na direção daquele som por uma estradinha precária, acreditando ser um acampamento de garimpeiros. Uns 300 metros à frente, avistei luzes e percebi tratar-se de uma aldeia indígena. Entrei, mas ninguém deu bola para mim: estavam todos assistindo à novela em suas televisões. Falei com um indiozinho que me encaminhou ao “capitão” na aldeia. Estranhei o título, mas o tal “capitão”, de nome Rogério, autorizou que eu pernoitasse num tapiri no centro da aldeia. Até brinquei com ele, dizendo que eu também era capitão, mas do Exército. Ao amanhecer, depois de escovar os dentes no rio onde uma índia nua lavava roupas e com a rede ainda armada no tapiri, vi que o local também era o refeitório comunitário e em poucos minutos eu estava rodeado por todos os índios da aldeia. Um índio velho resmungou, dizendo que eu não deveria estar naquele local. Mas quem manda é o “capitão”…


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Área de preservação

O Parque Nacional da Amazônia está situado a oeste de Itaituba (PA). Dentro dele, a Transamazônica tem uma extensão de 120 km e não há nenhuma habitação, somente selva. Recebi inúmeras recomendações de não pedalar nele por ser um santuário de animais selvagens, especialmente onças. Também escutei muitos relatos, logicamente exagerados, de andarilhos que foram devorados por elas. Nos 20 anos que morei no Amazonas, participei de inúmeras missões militares na selva e nunca tive contratempos, mas lá eu estava em equipe e com um fuzil na mão e muita munição… Um motivo mecânico me obrigou a decidir por fazer a travessia da reserva embarcado: a corrente da bicicleta estava patinando na coroa e seria impossível chegar a Itaituba pedalando. Consegui vaga numa picape cabine dupla que faz transporte regular na região, pagando a tarifa tabelada do trecho, R$ 120,00; o transporte da bicicleta não teve custos. Em Itaituba, foram trocadas as peças desgastadas. Ao longo da rodovia, também no Nordeste, existem outras áreas de preservação.


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Calor

O calor foi constante em todo o trajeto, desde a partida até o retorno para casa. Na Transamazônica, por ser uma rodovia no sentido leste/oeste, o sol está sempre sobre ela, não havendo sombra de árvores. O consumo de água é enorme, tanto para beber quanto para molhar o corpo. Na Amazônia há abundância de rios e igarapés, com água que não necessita de tratamento para consumo, mas no Centro-Oeste e Nordeste a deficiência hídrica é enorme, exigindo-se o transporte de muitas garrafinhas de água.


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O melhor amigo

No Pará, pernoitei numa fazenda que não produz nada. Seus ocupantes, todos homens, dedicam-se à extração de madeira. Com o café da manhã tomado, continuei a viagem. Uns 500 metros à frente escutei barulho de um animal de porte no mato, ao lado da estrada. Fiquei apreensivo, pois quem anda na selva passa o tempo todo pensando em onças. De repente, o animal pulou na estrada: era um dos cachorros da fazenda que resolveu me acompanhar. Tentei, em várias ocasiões, fazê-lo voltar, sem sucesso. Cerca de 20 km adiante, parei no boteco da D. Maria, às margens do igarapé Jacaré II, no km 1.340, para almoçar. E com o cachorro, reconhecido pela proprietária, sempre junto e já integrado à cachorrada do local. Ele me acompanhou por mais 2 km, quando entrou na selva e não o vi mais. Com certeza deve ter voltado à fazenda.


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Manutenção mecânica

A manutenção preventiva da bicicleta foi adotada como norma, com troca de peças ainda em boas condições. Isso até chegar a Porto Velho. Daí para frente, a dificuldade de encontrar oficinas e peças passou a ser constante. Ao contrário das motocicletas, que existem em abundância, as magrelas não fazem muito sucesso nas pequenas cidades das regiões Norte e Nordeste.


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Apoio recebido

O povo do Norte/Nordeste é muito simples, receptivo e prestativo. Em quase todos os contatos, a empatia era automática. O meu pedido era sempre o mesmo: água. Logicamente, eu tinha um “trunfo”: traje adequado, capacete, bicicleta “de aventureiro” equipada com alforjes, bagageiro e bandeiras. Tudo isso chama a atenção de todos e em várias ocasiões fui parado e entrevistado. Mas a admiração vinha mesmo ao mostrar o mapa do roteiro e as cópias dos jornais com as publicações das viagens anteriores. Em várias casas, recebi convite para almoçar, jantar e até pernoitar.


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“Aposentadoria”

Eu já havia realizado três longas viagens ciclísticas, desde os 39 anos de idade: Manaus/Venezuela, em 1994 (2.000 km), Manaus/Bolívia/Brasília, em 1997 (4.820 km) e Brasília/Oiapoque/Chuí/Brasília, em 2013/14 (11.640 km), e havia decidido que esta seria a última. Um encerramento com chave de ouro, sem dúvida, visto que esse era o meu grande sonho. A partir de agora, estrada só de motocicleta (minha grande paixão) ou carro.

Benhur Luiz Maieron

E-mail: benhurmaieron@yahoo.com.br, WhatsApp: (61) 9.9643-2417.

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