Pomares nos caminhos autoguiados

A relação entre os reflorestamentos e o cicloturismo é muito mais próxima do que se possa imaginar e pode gerar renda a partir da plantação de pomares e da fabricação de bicicletas de bambu.

Pomares e o cicloturismo no Paraná. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Talvez não seja tão simples perceber que há uma relação muito estreita entre reflorestamentos e o cicloturismo. Mas, qual seria essa relação? Nós do Lobi temos essa resposta e queremos fazer com que ela seja disseminada por todo o estado do Paraná. E, quem sabe, que ela extrapole as divisas e alcance muitos outros lugares país afora.

Reflorestamentos e o cicloturismo

Para começar, vamos contar um breve fato: é sabido que o cicloturismo tem ganhado um espaço considerável nas políticas públicas do estado do Paraná. Isso é algo a ser louvado depois de tanta luta. Recentemente, inclusive, o projeto de cicloturismo do Lobi foi credenciado para fazer parte do programa estadual Vocações Regionais Sustentáveis (VRS).

Circuito de cicloturismo desenvolvido no Paraná. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

O VRS é uma iniciativa da Invest Paraná, agência de promoção e atração de investimentos do Governo do Estado. O programa tem como objetivo principal a integração entre produtos locais e cadeias de valor de forma sustentável. Nesse sentido, tem vistas a fortalecer relações sociais, culturais e ambientais, bem como fortalecer os arranjos produtivos locais.

Fortalecimento dos arranjos locais

Cerimônia de assinaturas dos acordos para o lançamento do VRS no Palácio Iguaçu. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Nesse contexto, o escopo do projeto do Lobi credenciado junto ao VRS prevê o planejamento de rotas cicloturísticas que farão a ligação entre alguns pontos do estado, com estrutura de receptivo, informações turísticas e promoção da região onde estarão instalados. Diante disso, o projeto piloto do VRS do qual o Lobi faz parte será iniciado nos municípios de Morretes, Antonina e Guaraqueçaba. Nesses municípios serão trabalhados os conceitos de turismo de natureza e de base comunitária, além dos produtos regionais.

Assim, uma das principais propostas é fomentar a plantação de pomares de árvores nativas por esses caminhos cicláveis. É justamente aí que entra a relação entre os reflorestamentos e o cicloturismo. O objetivo principal é que as rotas cicloturísticas a serem planejadas sejam margeadas (porque não utilizar o termo “emolduradas”?) com pomares de árvores frutíferas que são nativas do Paraná, como o araçá, a pitanga e até mesmo a araucária! 

E por que essa ideia?

Plantar pomares nas rotas cicloturísticas é uma ideia que o Lobi vem fomentando desde 2014. Justificativas não faltam para que essa iniciativa seja apoiada. Os pomares nativos alimentam comunidades, atraem turistas e promovem, em si, alguns nichos mais específicos do turismo, como o birdwatching, que é a observação de aves, que se deslocam em busca justamente dos frutos que nascem dessas árvores. Onde há pomares, há pássaros!

Coruja Buraqueira nos caminhos cicláveis do Paraná. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Além disso, a união entre os reflorestamentos e o cicloturismo é também uma forma de interligar unidades de conservação. Primordialmente, porque esses caminhos cicláveis têm a capacidade de serem verdadeiros corredores ambientais utilizados não somente pelo cicloturista, mas também pelos animais. Nasce, portanto, mais uma forma de fomentar a atividade turística nas comunidades. 

No meio disso tudo, bicicletas de bambu

Da mesma forma que a plantação de pomares é uma das propostas do projeto, o bambu também terá um papel fundamental. Explica-se, uma das ideias a serem postas em prática pelo projeto é a utilização da gramínea para a fabricação de bicicletas. Sim! Bicicletas de bambu. Nesse caso, o intuito é levar o projeto às escolas das comunidades para que as crianças aprendam a manejar o bambu desde a sua plantação até a fabricação das bicicletas.

Bicicleta de bambu. Foto: Andrei Pires

Em suma, cada criança terá sua própria planta e, a cada ano, desde a plantação, que será feita nos primeiros anos de ensino, irá acompanhar o desenvolvimento dela. Até que nos anos finais poderá colhê-la e fabricar sua própria bicicleta. Ou seja, cada aluno poderá acompanhar os estágios específicos de manejo do bambu, tendo em vista que alguns anos depois poderá ter a própria bicicleta feita com o material.

Simplificando o processo

Por se tratar de uma planta tropical renovável e que produz anualmente sem a necessidade de replantio, o bambu apresenta um grande potencial de renovação. Além de ser um eficiente sequestrador de carbono, apresenta excelentes características físicas e químicas, sendo o recurso natural que se renova em menor intervalo de tempo. Não há nenhuma outra espécie florestal que possa competir com ele em velocidade de crescimento e de aproveitamento por área.

Thiago Fantinatti e a sua bicicleta de bambu aprovada nos testes. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Mas, e depois?

As bicicletas fabricadas a partir do bambu podem ser utilizadas pelas comunidades para a comercialização. Isso significa geração de renda às comunidades a partir de um produto nativo e que é beneficiado localmente. Ou seja, totalmente sustentável!

Dessa forma, estamos colaborando para um mundo melhor, para a saúde das pessoas e, especialmente, dos animais que usufruem da natureza. São ideias relativamente simples, mas que geram impacto positivo sobre as comunidades e territórios. Além disso, desenvolve-se o espírito empreendedor nesses locais desde os primeiros anos de escola.

Ciclotur do Lobi na Serra do Mar, Mata Atlântica. Foto: Ivan Mendes © Lobi CicloturCiclotur do Lobi na Serra do Mar, Mata Atlântica. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Sarrafo lá no alto

Ivan Mendes apresenta o Cicloturismo Autoguiado © Invest Paraná

Diante de todo o contexto aqui apresentado, o projeto-piloto que foi credenciado pelo Lobi junto ao Governo do Estado, que fará parte do programa Vocações Regionais Sustentáveis (VRS), irá trabalhar os conceitos de turismo de natureza e de base comunitária, além dos produtos regionais. Além disso, será mapeada e desenvolvida uma rota cicloturística interconectada entre os três municípios do Litoral já citados com São José dos Pinhais, onde haverá uma estação Michi-no-Eki.

Chancela do Governo

Anteriormente, vale frisar que o projeto do Lobi passou pelo importante crivo da Paraná Turismo. Um projeto dessa envergadura não é concebido para “passar apenas de passagem” em instâncias tão altas como as do Governo do Estado. Por isso, é que foram necessárias algumas avaliações prévias por parte de técnicos da autarquia responsável pela promoção do turismo no estado do Paraná. Foram dois pareceres favoráveis ao projeto do Lobi vindos da Paraná Turismo, o que prova que há uma grande capacidade de o projeto ser perene no horizonte turístico paranaense.

Rota de cicloturismo no Parque Estadual de Vila Velha. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Depois, o projeto foi “estartado” finalmente junto a Invest Paraná, a partir de um chamamento público, e apresentado a todo o Estado junto a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo (Sedest).

Precisa-se de mais projetos assim

Projetos como o que o Lobi aprovou junto ao Governo do Estado do Paraná são muito viáveis e totalmente em conta. E a questão que fica no ar é: Por que eles não são rapidamente absorvidos pelo poder público? A luta para se colocar em prática um projeto assim é muito maior do que para a implementação de um projeto milionário. Ou seja, há uma incongruência latente aí.

Pomares de bergamota nos caminhos cicláveis. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Qualidade e sustentabilidade

Não nos referimos somente à relação entre os reflorestamentos e o cicloturismo, qualquer consultor poderia ter pensado nessa questão antes. Ainda mais, estamos falando de capacitação, estruturação de rotas, divulgação, gestão de territórios e todo um rol de elementos que têm a potencialidade de transformar projetos como o do Lobi em case mundial, referência em qualquer país que leve o cicloturismo a sério.

Serra do Mar em Quatro Barras, Paraná. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Morosidade na implantação

Há uma lacuna muito grande entre o pensar e o agir nesses casos e, mais do que tudo, falta celeridade, vontade e, em alguns casos, até mesmo capacidade para se executar projetos assim. Não se pode botar a culpa na falta de dinheiro, ele existe! Faltam profissionais capacitados para coordená-los no poder público e sobram ingerências. Pois, há um imperativo implícito de que esses projetos têm que passar por uma infinidade de mãos, muitas das quais mal sabem o que fazer com eles. 

“O derrotado não é aquele que perde, mas aquele que desiste.”

Por Tiago Piontekievicz © Lobi Ciclotur