O dermatologista José Vitor de Oliveira Júnior percorreu o Vale Europeu de bicicleta, em Santa Catarina, perfazendo o circuito de cerca de 300 km em quatro dias. “Partimos de Barretos no sábado dia 17 de dezembro de 2016, as cinco horas da manhã, de carro e retornamos na quinta-feira, 22. Saindo de Barretos, descemos pelo rodoanel antes de São Paulo para pegarmos a Rodovia Régis Bittencourt até Curitiba. Foram cerca de 1.000 km percorridos de carro entre as cidades de Barretos-SP e Timbó-SC, a base de partida do Circuito Vale Europeu. A viagem dura em média quinze horas.

© José Vitor de Oliveira Junior

Preparo para o passeio

Não se engane com blogs que minimizam a dificuldade e exigência física do trajeto. Excetuando um trecho de 26,9 km apenas, entre Indaial e Rodeio, que é totalmente plano e rápido, a máxima é fazer força durante todo o restante do circuito. Assim, se prepare para aproveitar e não sofrer! Foram dois meses de preparo com exercícios funcionais e musculação em academia durante a semana, com o amigo e personal trainer Rafael Toledo e pedaladas de 80 a 90 km aos finais de semana para alcançar o condicionamento físico necessário.

© José Vitor de Oliveira Junior

Alimentação muito regrada, sem glúten, com bom aporte de proteína durante estes meses, a base de carne e ovos cozidos, e Pró-Colágeno 4:1 da Essential Nutrition (um restaurador muscular que previne lesões nas fibras musculares pós-treino) associado a cápsulas fitoterápicas com Turkesterona e Tribulus terrestris (que no nosso corpo são convertidos em andrógenos naturais) e um pré-treino a base de cafeína, todos prescrito pelo competente Dr. Diogo Toledo – médico nutrólogo de São Paulo que orientou toda a alimentação durante esta preparação sem dúvida, ajudaram muito evitando lesões e perda de massa uma vez que os meus 38 anos já não me garantem a vitalidade de uma criança!

© José Vitor de Oliveira Junior

E durante todo o trajeto, mantive a alimentação sugerida aumentando apenas a ingestão de ovos cozidos, de aportes do restaurador muscular e do pré-treino a cada hora percorrida de bicicleta além de muita hidratação com água gelada e isotônicos. E, como era de se esperar, como qualquer bom dermatologista, a cada parada para alimentação seguia-se um reforço no filtro solar. No circuito Vale Europeu pedala-se o tempo todo no alto, o que aumenta muito a exposição ultravioleta, e com a garoa e a chuva é muito importante revisar o protetor solar para evitar danos solares, o que tornaria o seu passeio mais ardido!

© José Vitor de Oliveira Junior

Primeiro dia de Pedal
Timbó > Pomerode > Indaial

Chegamos em Timbó ainda no sábado por volta das 20h e nos hospedamos no Hotel Blue Hill a três quarteirões do restaurante Tapyoka – o marco zero do circuito. Após exaustiva viagem, com o auxílio do Sr. Cleiton, amigo e condutor do carro de apoio, descarregamos o carro no hotel e nos dirigimos até o restaurante Tapyoka para um belo chope catarinense Weiss, leve, feito de trigo, que nos saciou a sede e nos relaxou após cerca de 15h de viagem. Neste restaurante é feita a inscrição para o circuito pagando-se uma taxa mínima e retirando-se o passaporte e o manual de instrução e mapas do trecho. Porém, já era noite e não conseguimos fazer naquela hora. No dia seguinte, no domingo, acordamos mais cedo e fomos até o restaurante e fizemos a inscrição antes de servir o café da manhã no hotel. A partir das 6h é possível fazer a inscrição pela porta dos fundos. Voltamos então para o hotel para um café reforçado.

© José Vitor de Oliveira Junior
© José Vitor de Oliveira Junior

A bike, equipada com alforjes traseiro, carregava água, câmaras de ar, ferramentas básicas, água e isotônicos e a cada hora o Sr. Cleiton, no carro de apoio, preparava a suplementação nutricional para uma boa complementação alimentar.

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Este primeiro trecho do dia foi tranquilo com uma boa subida no Rio Ada com uma escalada de cerca de 2,0 km em meio a Mata Atlântica nativa. Trata-se da parte mais exigente do primeiro trecho. Porém, as belas paisagens das montanhas e as casas estilo enxaimel valem cada gota de suor. Foram cerca de 45 km neste primeiro trecho. Entrando em Pomerode pelas suas ruas de paralelepípedo atravessa-se a cidade até a saída para o próximo trecho Pomerode-Indaial. Foi apenas o tempo de procurarmos o ponto certo para carimbarmos o passaporte e seguirmos viagem. Carimbe seu passaporte no Centro de Informações Turísticas. Alguns hotéis que estão cadastrados na rota para carimbo no passaporte não o fazem se você não estiver hospedado neles. Foram mais 40 km de pedalada até Indaial com trechos de subida íngremes e outros mais planos que exigem mais desenvolvimento técnico do que força. No trecho entre Pomerode e Indaial a atenção deve ser redobrada uma vez que se pedala por cerca de 1,0 km na BR 470, além de cruzá-la outra vez ali para frente. Chegamos em Indaial por volta das 17h e nos hospedamos no maravilhoso Hotel Fink, onde fomos recebidos pela gentil proprietária que nos disponibilizou quartos individuais além de um belo café da manhã no dia seguinte.

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Segundo dia de pedal
Indaial > Rodeio > Doutor Pedrinho

Nos despedimos do Hotel Fink em Indaial após o café da manhã (incluso na diária), e obtivemos o 2º carimbo no passaporte e tomamos novamente a trilha das setas amarelas” do circuito! Entre Indaial e Rodeio, saindo pela ponte suspensa, o trecho é plano e muito fácil tecnicamente. A estrada bem feita de cascalho, com poucos buracos, exige mais pelas “costelas de vaca” ao longo dos 27 km. O trecho é muito agradável e margeia o tempo todo o rio Itajaí Açu, com lindas pontes de madeira cobertas com telhados feitas pelos primeiros imigrantes que chegaram ao local. A ponte suspensa estreita no caminho permite a passagem apenas de um carro por vez. Também é uma bela atração. Antes da chegada em Rodeio a trilha nos conduz por dentro da pequena e bela cidade de Ascurra. Como o nosso destino do dia era Doutor Pedrinho, e não Rodeio, atravessamos a rua principal da cidade até retomar a trilha. Por sorte e por benção dos “São Bikers” o pneu da bicicleta furou e começou a murchar rápido ainda dentro de Rodeio. E o melhor, bem na frente da bicicletaria do atencioso Richiele! Resumindo: pausa mecânica estratégica de 1h na bicicletaria para remendo do pneu e hidráulica para uma bebidinha, lanchinho e terceira carimbada no passaporte. E aqui uma dica: para você que está planejando desfrutar da beleza deste vale este é o último ponto para reparos na bike antes de alcançar a parte alta do circuito. Aproveite!

© José Vitor de Oliveira Junior

O trecho seguinte começa logo na saída de Rodeio passando pela vinícola San Michelle e começando a pior de todas as escaladas do passeio. São 8 km de montanha girando na transmissão mais leve com média de 5 km/h. Administre o seu consumo energético pois até o pico você irá fazer muita força. Para quem está fazendo o circuito em sete dias fica bem tranquilo. Para aqueles que estão fazendo em três ou quatro dias não adianta entrar acelerado! Mas junto com a pior subida vem a melhor paisagem. O “Caminho dos Anjos”, no meio da subida, exige pausa para contemplação. A estradinha é coroada pelos dois lados por muitas esculturas de anjos e um cristo que transmitem serenidade e paz interior que, juntamente com a vista do vale, recarregam-nos as baterias para o resto do ano. Após esta escalada, o trecho então torna-se tranquilo até Doutor Pedrinho apesar de muitas subidas. A partir daqui a natureza vai se tornando mais isolada e muito presente. Passamos então pela cidade de Benedito Novo e chegamos em Doutor Pedrinho onde nos hospedamos no Bread and Breakfast da Dona Hilda. Não fizemos reservas. Chegamos sem avisar mas fomos muito bem recepcionados. As acomodações são boas e o jantar e o café da manhã, feitos pela própria Dona Hilda, são fartos e nutritivos e compensam os 77 km pedalados do dia. Aproveitamos também para carimbar o passaporte. Durante a noite o tempo mudou e a chuva começou a cair forte predizendo que os próximos dois dias de pedal seriam tensos!

© José Vitor de Oliveira Junior

Aqui no Vale a previsão do tempo não vale…o clima muda a cada cinco minutos. Desta forma, esteja preparado para enfrentar frio, chuva e sol forte em um único dia de pedalada.

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Terceiro dia de pedal
Doutor Pedrinho > Alto Cedros > Palmeiras

O terceiro dia de passeio começou cedo. Após a nossa quinta carimbada no passaporte em Doutor Pedrinho seguimos rumo a Alto Cedros. São cerca de 40 km em uma estrada isolada com poucas casas e quase sem nenhum movimento de carros. Não há subidas íngremes, porém o sobe e desce é constante de forma que exige bastante do ciclista. Se há chuva forte – como foi o nosso caso – a dificuldade técnica e o esforço físico dobram. O barro grudado permanentemente nos pneus e na transmissão aumenta o peso da bicicleta e diminui o grip com o chão e o rendimento. Assim permaneceu durante todo este trecho. Porém, uma subida em uma estrada de pedras brita em meio a uma floresta de araucária durante este trajeto nos levou a um bosque nublado que mais parecia um túnel do tempo que uma paisagem campestre. Sem dúvida, uma higiene mental. Travessias de pequenos riachos e clareiras também recheiam este pedaço de caminho de beleza e nos convidam sempre a tirar a sapatilha e ficarmos de pés descalços e absorvermos a energia que a natureza nos oferece. Mesmo com chuva e barro. Chegando em Alto Cedros o passaporte pode ser carimbado em uma pousada quase na frente da represa. Assim, tratamos logo de conseguir a nossa sexta carimbada no passaporte e seguimos para Palmeiras pois, pela dificuldade deste trecho inicial, já era próximo ao meio dia.

© José Vitor de Oliveira Junior
© José Vitor de Oliveira Junior

A distância entre Alto Cedros e Palmeiras gira em torno de 42 km. O trecho é repleto de subidas e muito isolado. Pedala-se pela floresta e entrecortando as encostas das montanhas. Os paredões rochosos mostram toda a força e exuberância da natureza e nos revelam o quanto somos vulneráveis a ela. Por outro lado, também nos compraz de felicidade por sabermos que há biomas tão preservados e ricos em tanta beleza. A chegada em Palmeiras foi restabelecedora, pois a chuva e o barro nos exauriram as forças. Sem destino certo, procuramos o Bread and Breakfast do Vitorino bem localizado na rua principal em Palmeiras. Chegamos de surpresa. E como sempre, fomos muito bem recebidos. Sua adorável esposa nos ofereceu de imediato uma mangueira e uma ducha para nos lavarmos e também passarmos uma água na bike. Tivemos que desmontar parte da bicicleta para uma lavagem mais profunda uma vez que, de tanto barro, barulhos e ruídos tornaram-se uma constante. Durante a lavada da nossa querida companheira fomos presenteados com uma fritada de pastéis e um refrigerante bem geladinho que era tudo que estávamos precisando naquele momento. Depois de tirar o grosso, tomamos um banho quente e descansamos até a hora do jantar. Ovos fritos, omelete, carne suculenta, salada fresca, arroz e feijão feitos na hora foram nossos presentes de jantar. E ainda veio a cereja do bolo. O orgulho e especialidade do Sr. Vitorino: uma bela jarra de suco de laranja feito na hora por ele próprio que serve com tanto orgulho como a especialidade da casa. E assim terminamos a noite após 82 km de giro bem trabalhados.

© José Vitor de Oliveira Junior

Quarta dia de pedal
Palmeiras > Timbó

Café tomado. Passaporte carimbado. Prontos para o último dia da nossa aventura. Tempo sem chuva, porém, piso ainda muito molhado e embarrelado. Este último trecho de 53 km é muito acidentado com uma subida forte em Rio Cunha. No início do percurso a natureza ainda é muito densa tornando-se mais suave ao chegar em Timbó. No trajeto entre as duas cidades começamos a descer para a parte baixa do circuito. Algumas descidas são muito acentuadas e meu freio traseiro foi para o brejo logo no final da segunda descida. Isto tornou o resto da nossa viagem ainda mais emocionante. Em alguns trechos é possível alcançar até 70 km/h no seu ponto final. A estrada acompanha em muitos trechos rios e riachos de água cristalina que trazem para dentro de nós o melódico som da natureza.

© José Vitor de Oliveira Junior

E de repente quando menos se esperava estávamos entrando novamente em Timbó e chegando ao Tapyoka pela ponte suspensa onde finalizamos o nosso circuito ainda com barro e chuva.

© José Vitor de Oliveira Junior

Foram quatro dias muito agradáveis e de muita introspecção no nosso pedal. Anjos no caminho, crianças falando em alemão pelas ruas e escolas públicas, pontes antigas, lindas cachoeiras, boa recepção, floresta nativa, montanhas que desafiam! Cenário de filme!

© José Vitor de Oliveira Junior

Se o Vale Europeu vale? Sem dúvida: esse Vale vale a pena! Última carimbada no passaporte: certificado em mãos. Hora de nos prepararmos para a próxima aventura em duas rodas.