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E-bike no Caminho de Santiago

E-bike no Caminho de Santiago

As dicas de quem pedalou uma e-bike pelos 800 km até Compostela

O uso frequente da bicicleta assistida é uma realidade na Europa. Ela é utilizada nas trilhas e ciclovias europeias por ciclistas de todos os níveis e idades. No Brasil, ainda  é considerada cara ou uma bike para quem está fora de forma, o que não deixa de ser um baita preconceito.  Em maio, fizemos os mais de 800 km do Caminho de Santiago de Compostela com uma e-bike da marca alemã Cube. Contamos para vocês a nossa experiência e impressão.

© Ana Cristina Sampaio

O Caminho francês

Em primeiro lugar, é preciso falar das trilhas do Caminho de Santiago a partir de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, até Santiago de Compostela, na Espanha. Desde o início sabíamos que os primeiros 250 km seriam os mais duros, e é a pura verdade. Aqui, vale um parênteses: em todo o trajeto existem as rodovias e a trilha dos peregrinos.  Somente pela trilha você vai se deparando com as dezenas de pequenos vilarejos históricos, os charmosos e peculiares estabelecimentos onde você pode comer e pernoitar, a distinta e incomparável natureza das três províncias espanholas por onde passa o Caminho, e a verdadeira alma dessa que é considerada a maior rota de peregrinação da Europa: os milhares de peregrinos do mundo inteiro que seguem para o mesmo destino. É com eles que você vai viver as melhores histórias, as grandes lições de vida e os inesquecíveis momentos da sua viagem.

© Ana Cristina Sampaio

Portanto, para peregrinar de bicicleta, há que se seguir pela trilha dos peregrinos, embora em alguns momentos você seja obrigado a usar as rodovias em que as bicicletas são permitidas, já que o Caminho se torna muito estreito e a rodovia está ao lado da trilha. Porém, essa situação é pontual e você vai se deparar com ela para tomar a sua decisão.

© Ana Cristina Sampaio

Quando a e-bike vale a pena

Voltando à nossa cicloviagem (cujo roteiro deixo como sugestão), é importante mencionar que, para cruzar os Pirineus no primeiro dia, a bike assistida mais atrapalha do que ajuda. São em torno de 1500m de altimetria em 33 km de trilhas com trechos simplesmente intransitáveis devido às pedras e à lama. Por isso, só resta empurrar uma bicicleta de quase 25 kg morro acima, em terreno extremamente acidentado.     

© Ana Cristina Sampaio

A partir daí, a e-bike começa a ficar mais interessante, embora empurrar continue sendo obrigatório em vários trechos até Pamplona, a menos que você seja muito experiente. Vale salientar que nos 300 quilômetros iniciais não há muitos ciclistas fazendo o Caminho, ao menos pela trilha. Eles começam a surgir, principalmente de e-bike, a partir da cidade de León, já nos 300 km finais.

© Ana Cristina Sampaio

Daí para diante, o terreno é bem menos acidentado, embora o aclive seja sempre forte, especialmente na temida subida do Cebreiro, a segunda mais difícil de todo o Caminho de Santiago, perdendo apenas para o trecho até Roncesvalles. São 28,9 quilômetros de ascensão constante, sendo os últimos 6 quilômetros os mais pesados. Nesse trecho, a e-bike é a sua melhor amiga. Ela faz do Cebreiro um passeio bem agradável e te permite apreciar a belíssima vista dessa estrada que serpenteia pelas montanhas até um vilarejo todo de pedra. No meu caso, só fiz mais força por que estava controlando a autonomia da bateria, já que pedalei 80 km até o destino. Caso usasse o modo turbo durante toda a subida poderia ficar sem carga. Mas ainda cheguei com 40%.  

© Ana Cristina Sampaio

Diferentes opiniões

De León em diante, o número de peregrinos parece que triplica, já que muitos escolhem fazer apenas a segunda metade do Caminho. O ciclista, então, precisa ir driblando com cuidado os caminhantes. É nesse trajeto que as e-bikes aparecem com força. São inúmeros os grupos, casais e ciclistas solitários. Eram todos europeus, ao menos os com quem conversei, muitos deles pedalavam a própria e-bike. Vão mais rápido e sofrem bem menos.

© Ana Cristina Sampaio

Eu aproveitei para conversar com vários sobre o uso da bicicleta assistida e soube que, apesar de ainda ser considerada cara, é logo a segunda compra que fazem quando iniciam no mountain bike ou nas viagens de bicicleta, que, aliás, são muito comuns por lá devido à grande malha cicloviária.

© Ana Cristina Sampaio

Um deles, holandês, pedalava com a esposa trajando calça jeans e sapatos. Cruzei com eles durante três dias, sempre muito alegres e felizes por encontrar brasileiros. Grupos de espanhóis e portugueses eram bem comuns e todos pedalavam a própria e-bike. Conversei também com um casal francês que pedalava sua bicicleta assistida há oito anos pela Europa. Não foram poucas as e-bikes full suspension que encontrei, mostrando que a modalidade é também para os que querem aventura (e as trilhas dos primeiros 250 km são pura diversão para quem busca desafios no MTB).      

© Ana Cristina Sampaio

Os brasileiros, no entanto – e foram vários os grupos no Caminho -, pedalavam bikes normais e, ao me verem com uma bike assistida, fizeram todo tipo de comentário. Alguns me perguntaram sobre a experiência pensando na esposa, que não tem preparo físico para enfrentar uma cicloviagem de nível avançado e poderia se beneficiar da e-bike. Outros já me consideraram uma ciclista “nutella” e que pedalar “de verdade” não poderia ser de e-bike.

© Ana Cristina Sampaio

Afinal, vale a pena?

Alugar uma e-bike na Espanha não é difícil e os preços podem variar de EU$ 40 a EU$ 70 a diária, a depender do modelo e da suspensão escolhida. As baterias têm autonomia para trajetos entre 60 e 80 km, mas isso vai depender do uso, pois quanto melhor você pedalar, menos vai usar as potências superiores, economizando a bateria.

© Ana Cristina Sampaio

Embora seguir pela trilha durante todos os mais de 800 km seja o que vai te trazer mais emoção, eu teria facilmente usado a rodovia em alguns dos trechos mais intransitáveis ou técnicos para meu nível nos dois dias iniciais. Porém, não teria tido experiências fantásticas de superação e beleza.

© Ana Cristina Sampaio

A e-bike é sua grande aliada na maior parte do Caminho, quando você tem subidas longas e de grande inclinação. Além de economizar pernas e fôlego, ela te trará maior autonomia e rapidez, e te permitirá desfrutar muito mais do passeio. Se você for experiente e gostar de desafios, a opção full suspension vai te garantir diversão e conforto. O que sugiro é que, seja em dupla ou em grupo, todos estejam de e-bike, pois vocês seguirão no mesmo ritmo. No meu caso, como era a única a pedalar uma bike assistida, aguardava os demais ao final de cada subida. O que também foi excelente, pois pude interagir muito mais com os peregrinos.    

© Ana Cristina Sampaio

Para concluir, eu diria que a e-bike atende àqueles ciclistas que buscam amenizar as dificuldades do longo Caminho de Santiago e até mesmo torná-lo possível aos com menor condicionamento físico. Em grupo, ela beneficia os mais lentos, porém é incomparável a sua maior rapidez. Eu, particularmente, a achei sensacional, embora empurrá-la tenha sido o maior desafio de todos.  


Sugestão de roteiro

Nossa cicloviagem foi de 15 dias. Os dados a seguir foram obtidos com o uso do aplicativo Strava.

Dia 1 – SJPP/ Espinal – 33 km, 1.500m

Dia 2 – Espinal/Villava – 37 km, 700m

Dia 3 – Villava/Estella – 53 km, 965m

Dia 4 – Villava/Logronho – 49 km, 800m

Dia 5 – Logronho/Belagro – 74 km, 1170m

Dia 6 – Belagro/Burgos – 52 km, 650m

Dia 7 – Burgos/Castrojeriz – 42 km, 350m

Dia 8 – Castrojeriz/Ledigo – 68 km, 430m

Dia 9 – Ledigo/León – 76 km, 470m

Dia 10 – León/Murias – 59 km, 480m

Dia 11 – Murias/Ponferrada – 43 km, 740m      

Dia 12 – Ponferrada/Vila Vella – 80 km, 1500m

Dia 13 – Vila Vella/Portomarín – 48 km, 715m

Dia 14 – Portomarín/Arzúa – 56 km, 1100m

Dia 15 – Arzúa/Santiago de Compostela – 40 km, 665m

Nota: A repórter pedalou a e-bike Cube por cortesia da empresa The Bike Europa (@thebikeeuropa). 

Ana Cristina Sampaio (instagram @anacris_sampaio)