Índia…. Com um bilhão e duzentos milhões de habitantes, a Índia é a democracia mais populosa do mundo e possui mais que o dobro da densidade demográfica da China. Com vinte línguas oficiais e centenas de dialetos, tudo parece caótico até o momento em que percebemos uma lógica própria que impede seu colapso. Neste país vivi a maior aventura de minha volta ao mundo e passei a sonhar com o dia em que voltaria para visitar os lugares que o inverno de 1994 me impediu de ver.

Longe do burburinho dos grandes centros turísticos seguimos direto para uma cidade chamada Manali, no estado de Himachal Pradesh (ver dica 1 no box).

Vamos resumir este caminho: foram nove horas de voo até Johanesburgo, quatro de espera, outras nove até Bombaim, seis de espera, mais duas de voo e chegamos às oito horas em Delhi.

© Rafaela Asprino

Calma que tem mais…. Pegamos um táxi até Majnu-Ka-Tilla (muitos nomes de locais têm grafias diferentes conforme a fonte consultada, já que em cada língua as letras podem possuir sons distintos), que é o bairro de Delhi de onde partem ônibus com destino a Manali. Ficamos esperando em uma pequena e causticante sala das 10 h às 19 h para só então começar 14 horas de viagem de ônibus até nosso destino (ver dica 2 no final da matéria). Para quem gosta de viajar de bicicleta, esta é a pior parte da viagem, gastamos cerca de três dias aclimatando e preparando para a etapa seguinte.

Em Manali pudemos ter uma “experiência controlada de Índia”. A cidade, que não é muito grande, vive principalmente do turismo interno. Milhares de indianos vêm aqui ver neve, é quase como uma “Gramado indiana”. Vimos indianos do sul com roupas alugadas escorregar felizes em um pedaço de 300 m de neve que o verão ainda não tinha derretido (ver dica 3 no box). Restaurantes satisfazem a todos com várias especialidades de comida: tibetana, punjab, vegetariana, não vegetariana e por aí vai.

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Acampamos praticamente todos os dias de forma selvagem. Às vezes, até tínhamos força para pedalar mais um pouco, mas os locais eram tão apaixonantes que não resistíamos à tentação de ficar para ver o sol se por naquela específica montanha. Comtemplávamos as estrelas até não suportar o sono…

O caminho a nossa frente era longo, cerca de 500 km até a cidade de Leh, começando pela subida do Rohtang La, com 3.978 m de altitude (“La” significa passo). É o Rohtang La que segura a maior parte da umidade das monções. Sabíamos que após atravessá-lo as paisagens ficariam cada vez mais secas.

Ainda tínhamos muito para pedalar antes de chegar a Ladakh, mas percebíamos que estávamos em região budista e a cada quilômetro as características deste povo se tornavam mais marcantes. A feição descendente de mongol, os templos, os monastérios chamados de Gompas, os monumentos chamados de Stupas e principalmente as bandeiras de oração no topo dos morros marcavam seu território.

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Para os budistas a repetição rítmica de um mantra é muito importante, cada vez que o vento sopra flamulando aquelas bandeiras de pano com inscrições sagradas é como se as orações nelas contidas fossem repetidas. Todas as boas intenções, pedidos e preces são renovadas. Esta mesma ideia está por trás dos rolos de oração, instalados em volta dos templos, que são impulsionados pelos fiéis sempre no sentido horário, ou seja, da esquerda para direita. É por isso que costumo comparar o pedalar com um mantra, pois a repetição rítmica nos induz à meditação e introspecção. A rigor, a mesma técnica é utilizada de forma parecida quando os católicos rezam seus longos rosários.

Esperávamos encontrar muita desolação, mas percebemos que nesta época a estrada tem sempre algum movimento. Nada para estressar, ao contrário, a quantidade de veículos parecia ideal, pois em caso de emergência poderíamos obter ajuda facilmente. O carinho com que os motoristas nos tratavam era marcante, incontáveis foram as vezes que caminhões ofereceram carona.

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As “dhabas” ou restaurantes são provisórios. Simplesmente um grupo de pessoas que montam grandes barracas do tipo militar ou à moda dos pastores e servem refeições simples e alguns produtos de primeira necessidade.

Acampamos praticamente todos os dias de forma selvagem. Às vezes, até tínhamos força para pedalar mais um pouco, mas os locais eram tão apaixonantes que não resistíamos à tentação de ficar para ver o sol se por naquela específica montanha. Contemplávamos as estrelas até não suportar o sono e só acordávamos no outro dia para mais uma jornada. Não há por que ter pressa em um lugar assim.

A quilometragem diária era bastante comprometida pela dificuldade do terreno. Além de longas e íngremes subidas, os caminhos nem sempre são asfaltados, e quando são, geralmente estão em péssimas condições. Quando tudo parece ideal para uma viagem performática em termos de velocidade, é a altitude que nos faz parecer velhinhos da terceira idade andando de bicicleta.

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Conseguimos impor nosso próprio ritmo de acampamentos livres, pois saímos de Manali com suprimentos que acreditávamos não poder encontrar pelo caminho, como frutas e verduras frescas e desidratadas, castanhas, combustível para o fogareiro etc… Entretanto, logo percebemos que o fluxo de caminhões e turistas na estrada era suficiente para manter várias tendas que ofereciam comida aqui e ali.

As “dhabas” ou restaurantes são provisórios. Simplesmente um grupo de pessoas que montam grandes barracas do tipo militar ou à moda dos pastores e servem refeições simples e alguns produtos de primeira necessidade. Com semblante de tibetanos estas pessoas vêm de lugares distantes, ficam todo o verão e a partir de 15 de setembro, quando termina a temporada, desmontam tudo e voltam para suas cidades.

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Macarrão instantâneo, chapati (pão local parecido com pita), ovos, café solúvel, açúcar, bolachas, salgadinhos, algo de higiene, tudo isso podíamos contar que encontraríamos nas tendas e passamos a pedalar mais tranquilos. Geralmente existem camas em toda a extensão das tendas, elas servem para sentar, tomar as refeições e a noite para dormir. Um cicloturista pode decidir não levar barraca e dormir nestas tendas pagando muito pouco (150 rúpias, equivalente a 2,5 dólares).

Por outro lado, este caminho tem ficado cada vez mais popular entre motociclistas do mundo inteiro que vêm às dezenas fazer o circuito em suas estilosas Royal Enfield, até hoje produzidas em série na Índia. Agências de viagem indianas acomodam os motociclistas em luxuosos “hotéis” feitos com barracas de campanha, tudo provisório. As barracas são como uma suíte, tem uma ou duas camas de verdade e banheiro com privada ocidental em um cômodo separado, tudo dentro da mesma barraca (2.000 rúpias com jantar e café da manhã). É tanta comodidade que o motociclista não precisa nem aquecer o motor da moto antes de partir pela manhã.

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Em Keylong ficamos surpresos com o tamanho da cidade, pudemos encontrar de tudo, desde combustível para o fogareiro até eletricidade por algumas horas ao dia.

Em Darcha existe um posto de controle onde os estrangeiros são obrigados a registrar a entrada na região. Havia muito para andar ainda, mas a sensação é de ter chegado ao fim do mundo conhecido, algo como entrar em uma zona proibida para além de nossa civilização. Um amontoado de casas em meio a altas montanhas áridas, tudo empoeirado, e um caminho que só poderia levar a lugar nenhum.

Subimos até o Baralacha La com 4.890 m de altitude e descemos para a primeira estrada plana do caminho, que maravilha!

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Em Sarchu temos outro posto de controle com cara de fronteira de fim de mundo. Do amontoado de “dhabas” podemos ver onde inicia o estado de Jammu-Caxemira. Finalmente estávamos entrando na região de Ladakh.

As 21 curvas fechadas da chamada “Gata Loops” se mostravam como gigantescos degraus escavados na montanha para facilitar a subida aos 4.667 m de altitude. Mas isso não era tudo, pois ainda tínhamos que subir ao Nakee La (4.739 m), descer um pouco, para finalmente subir até Lachulung La com 5.064 m.

Mais uma vez descemos muito para depois subir ao sonhado planalto chamado “Moray Plains”, que se espalha num vale gigante com suave declive. Olhando o perfil altimétrico parece fácil, mas após alguns dias a 4.800 m de altitude os efeitos do ar rarefeito faz tudo parecer um sacrifício (ver dica 4 final da matéria).

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É por isso que costumo comparar o pedalar com um mantra, pois a repetição rítmica nos induz à meditação e introspecção.

Tomamos uma derivação e fomos descansar dois dias em uma localidade chamada Thukje. O povoado parecia abandonado: casas de pedra com grandes cercados cheios de estrume de iaque mostravam onde eram os estábulos. Os moradores são nômades, passam o verão nas montanhas engordando seus iaques. Só ficam na cidade os donos das dhabas.

Recobrado o fôlego, partimos para subir os 5.328 m do Taglang La. O clima mudou rápido e concluímos o passo em meio à chuva e vento forte, tornando a chegada ao passo muito tensa. Felizmente, a descida possuía asfalto novo e depois desta experiência tudo pareceu fácil até chegar a Leh.

Dezessete anos depois, Leh tornou-se outra cidade. Não consegui me lembrar de quase nada além das montanhas do Forte e da Gompa. A pacata Leh que visitei não existe mais. Agora está cheia de pousadas e restaurantes; turistas caminham tranquilamente em suas novas ruas abertas para carro. Ao lado está a cidade antiga, praticamente abandonada. Casas de pedra e adobe, umas apoiadas às outras, desenham um labirinto de ruas tortuosas por onde um dia passaram caravanas de mercadores seguindo o chamado Caminho da Seda.

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Para continuar em nosso roteiro precisávamos de permissão, pois a partir de Leh entraríamos em áreas restritas, muito próximas à fronteira com a China (Tibete). Como as permissões têm uma semana de validade, teríamos que voltar a Leh para pegar nova permissão e continuar nossas visitas.

Primeiro seguimos para norte em direção ao Khardung La e o vale Nubra, depois a leste para conhecer o lago Pangong. Khardung La é considerado pelos indianos como “Highest Motorable Road in the world” (estrada motorizável mais alta do mundo), com 5.602 m de altitude. Bem, não quero criar nenhuma polêmica aqui, mas há quem duvide desta marcação de altitude; na verdade, seriam cerca de cinco mil trezentos e tantos metros e, em outro ponto, também na Índia, estaria outro passo com cinco mil trezentos e um pouco mais de metros. Desculpe, não sou fã de recordes, não me preocupo muito com isto, o que posso garantir é que na região estão os passos mais altos do mundo. Fizemos quatro dos maiores e o Khardung La não foi o mais interessante.

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Depois de um passeio pelo vale Nubra, voltamos pelo Wari La, este sim com assumidos 5.310 m de altitude. Enquanto no Khardung La nos acotovelávamos numa fila para fazer a clássica foto ao lado da placa do passo, no Wari La acampamos com as marmotas e iaques em seu sopé (5.000 m); na subida do passo só vimos um único veículo de locais. Muitas vezes, menos é mais…

Não é possível fazer um loop passando pelo lago Pangong, temos que ir e voltar no mesmo caminho. Sendo assim, após pegarmos novas permissões, entramos em um táxi coletivo e colocamos nossas bicicletas em cima para com elas fazer o caminho de volta.

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O lago está entre as paisagens mais belas de toda a viagem. Quando vejo os filmes chega a parecer que estamos dentro de um cenário, uma montagem em “chroma key”. As fotos pareciam infiéis à beleza que contemplávamos. Mesmo parados tudo se transformava conforme a luz e as sombras atuavam nas montanhas coloridas e naquela água de misteriosas tonalidades. Pedalamos até onde nos permitiam chegar pelas margens do lago e voltamos para fazer o último dos grandes passos, o Chang La, 5.360 m.

Quando vejo os filmes chega a parecer que estamos dentro de um cenário, uma montagem em “chroma key”. As fotos pareciam infiéis à beleza que contemplávamos.

Com asfalto bom e passos mais aprazíveis (Fotu La, 4.108 m e Namika La, 3.718 m) fizemos rapidamente o trajeto Leh-Kargil. No caminho, paramos para visitar os monastérios (Gompas) de Alchi e de Lamayuru. O primeiro é um dos mais antigos que vimos, já o segundo impressiona por manter preservada toda a comunidade em volta, formando um verdadeiro feudo medieval. Grandes afrescos ricamente decorados em filigrana adornam as entradas dos templos com os quatro guardiões, um para cada ponto cardial. Temos sempre que tirar os sapatos para entrar e apreciar as esculturas e os afrescos que em si contam muitas histórias. À meia luz, o ambiente é lúgubre e nos remete a uma época medieval: dá para imaginar os monges sentados no chão com seus livros de oração apoiados nas longas mesinhas. Entretanto, as Gompas não são prédios antigos que hoje servem de museu. Todas estão vivas, existem monges de todas as idades, desde crianças até anciãos, os templos e seus grandes pátios internos ficam apertados em dias de festa. Em Lamayuru acordamos cedo para participar das orações. É incrível como o monge reza rápido. Assim como o som grave de um show parece penetrar em nosso plexo solar, o tom grave que o monge aprende a produzir parece que toca de uma forma profunda a alma de quem está por perto. Não entendia nada do que dizia, mas respeitava sua fé e disciplina, afinal “o hábito faz o monge”.

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Quando estive em Kargil a cidade tinha uma única rua asfaltada, a rodovia. Nem dá para acreditar em seu tamanho atual. Esta foi uma surpresa pouco interessante. Caótica e cara, não é uma boa sugestão para um cicloturista. Tentamos partir o mais rápido possível desta região, mas os efeitos de anos em uma guerra civil velada nos perseguiram como um estigma.

A Índia reclama até hoje uma grande área do estado de Jammu-Caxemira tomada pelo Paquistão. Também acusa este país de patrocinar movimentos separatistas na região. No verão de 1999 a invasão do território hindu por soldados paquistaneses e separatistas provocou a chamada Guerra de Kargil que, apesar de ter durado pouco tempo, deixou marcas.

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Até este ponto do caminho vimos muitos soldados, tropas em comboio, bases militares, mas a primeira vez que vimos soldados armados foi na escolta que protegia o Dalai Lama na visita a Leh. A partir de Kargil todo militar que vimos estava armado e muitas vezes com equipamentos pesados.

Lembro bem em minha volta ao mundo que quando estive na região as crianças vinham pedir uma caneta: “give me one pen”, elas diziam enquanto corriam ao meu lado. Neste quesito nada mudou. Depois de Kargil até começar a sair da região habitada por maioria muçulmana, infelizmente tínhamos diariamente este tipo de tratamento, mesmo que cumprimentássemos a todos educadamente conforme sua língua e cultura, a única coisa que ouvíamos eram pedidos, muitas vezes agressivos e ameaçadores. Como a bicicleta sempre aproxima o viajante das pessoas, me doía ver a agressividade mesmo em crianças pequenas. Pedalamos rápido para fugir disso, mas o vale do rio Suru é longo, fértil e cheio de vilarejos. Após o Penzi La (4.400 m) voltamos a encontrar a cultura tibetana.

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Não temos dúvidas, os 200 quilômetros entre Sankoo e Padum foram as piores estradas que pedalamos. O caminho é feito com pedras grandes que servem somente para ajudar os veículos militares 4×4 a não ficar atolados no inverno. Quando o rípio argentino faz costelas de vaca é triste, mas a costela é arredondada; no vale Suru até Padum as pedras são grandes com quinas pontiagudas, a bicicleta pula alto e o pneu parece uma âncora enroscando por todo lado. Chegamos exaustos em Padum e tiramos alguns dias para nos preparar para a próxima etapa da viagem.

Mesmo sendo um distrito de Kargil, Padum tem outro “clima”. Sede da região, a cidade abastece todas as pequenas vilas do vale de Zanskar. Em suas ruas observamos monges e camponeses com coloridos trajes típicos comprando víveres. À noite, a rara visão de uma cidade com vários sobrados, mas sem nenhuma iluminação, exalta o céu estrelado deste árido altiplano.

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Padum está no final da rodovia, nossos planos de viagem seguiam precisos até este ponto, quando não tínhamos bem ideia do que fazer. O ideal de um circuito é voltar por um caminho diferente; para que tudo desse certo teríamos que continuar por terra passando pelo Shingo La, com 5.091 m, o problema é que não há estrada, só uma trilha de cerca de 80 km.

O exército é o principal lobista para construção de rodovias na região, logo haverá uma alternativa mais curta ligando Manali a Leh através deste passo. Não sabíamos como estavam as obras da rodovia, nem quantos quilômetros, só sabíamos que iríamos tentar atravessar ou teríamos que voltar todo o caminho que fizemos até agora. Perto de BodhKharbu encontramos um casal de russos que fizeram este passo de bicicleta. Até então só sabíamos, pela net, de um casal inglês e um grupo de três rapazes.

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Como a região já é bem conhecida para caminhada, os locais já se profissionalizaram e não é difícil encontrar cavalos de aluguel para carregar equipamento. Pelos nossos cálculos, apesar dos pangarés indianos serem bem raquíticos, podiam carregar cerca de 40 kg, que é mais ou menos a soma de tudo o que temos em nossas bicicletas. Normalmente um cavalo junto com o cavaleiro que é guia custa cerca de 2.800 rúpias num pacote de travessia do passo que leva sete dias. Até aí tudo bem, o problema é que era época de colheita e todos estavam ocupados com o trabalho na terra, ninguém queria se afastar por mais de uma semana para alugar um único cavalo, teria que ser algo mais.

Vimos um alemão solitário com uma expedição de cinco animais só para ele… A temporada de caminhadas estava acabando e já não era fácil encontrar alguém para compartilhar uma caravana. Felizmente encontramos Roberto, um italiano viajando de moto desde a Europa que viveu no Brasil e falava fluente o português. Muitas negociações de tempo e valores e foi o Roberto que acabou conseguindo fechar o aluguel de dois cavalos, mas teríamos que atravessar o Shingo La em somente quatro dias pagando 4.200 rúpias cada cavalo.

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Nunca gostei de carregar bicicleta nas costas, este não é meu esporte. Para mim a bicicleta pode ser empurrada, mas nunca carregada, senão perde sua função. Neste caso apostamos nas histórias das experiências dos colegas cicloturistas que diziam ser possível empurrar a bicicleta por todo o circuito, às vezes, daria até para pedalar.

Para diminuir ao mínimo os quilômetros caminhados, seguimos até o ponto final dos trabalhos da “rodovia”. Neste dia, já sentimos que esta seria a parte mais dura da viagem. Que acha de levar duas horas para atravessar uma ponte? Estou falando de uma ponte pênsil que após ter sido destruída foi “ajeitada” pelos locais com alguns grampos de cabo de aço, gravetos e couro de iaque. A desgraçada balançava tanto que só conseguíamos passar com as duas mãos no corrimão que, após a última “reforma”, como o cabo de aço era pouco, ficou baixo e tínhamos que ficar arcados para apoiar. Passamos os equipamentos aos poucos e, em duas pessoas, uma bicicleta por vez. Depois da ponte ainda tínhamos que escalar a encosta do outro lado que estava sendo escavada na rocha. Sem a ajuda do Roberto seria ainda mais difícil.

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Nós não somos grandes caminhantes, se treinarmos muito podemos caminhar bem, mas depois de meses só andando de bicicleta, preferíamos pedalar sempre que tínhamos uma chance, assim mantínhamos a alta quilometragem diária imposta pelo Roberto e pelo guia.

Acredito que o melhor para nós seria ter alugado dois cavalos, um para bagagem e outro para as bicicletas, daí poderíamos seguir mais tranquilos apreciando a natureza. Com o pouco tempo acabamos nos esforçando muito carregando a bicicleta por entre as pedras do caminho e os dias eram sempre curtos, quase nem dava para ficar apreciando a paisagem.

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Encontramos um grupo de duas garotas e três rapazes, todos da Eslovênia, que carregaram tudo através do passo em sete dias, o mesmo tempo do casal de ingleses, mas nada se compara aos russos que sem qualquer ajuda atravessaram o Shingo La em quatro dias.

Não fosse a agradável companhia do Roberto e de Zangpo, o guia local, estaríamos arrependidos de ter feito o caminho desta maneira, mas a convivência com estas pessoas deram outro colorido à nossa viagem, que logo se deslocou das montanhas para as pessoas que por sua honestidade e simplicidade nos abriram verdadeiros universos internos. Zangpo matava todas nossas curiosidades sobre a cultura local e Roberto nos contava histórias fantásticas de suas várias viagens pela Ásia central. Ele é tão apaixonado pela região que chegou a aprender persa, a língua oficial do Irã.

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Claro que depois de passar o Shingo La e nos despedirmos a viagem não teria o mesmo sabor de aventura. Continuamos por lugares maravilhosos como o vale Spiti e Kinnaur, mas a emoção era decrescente, própria de final de uma grande aventura.

Muito antes de Shimla, paramos de pedalar em Recong Peo, quando por dois dias estávamos dormindo só em pousadas. Já não era mais possível encontrar locais para acampar. A cada bela cachoeira, a cada planície, encontrávamos trabalhadores das estradas morando em barracas com toda a família. As cidades cada vez mais cheias de gente e carros nos mostrava que a aventura com paz e liberdade que buscávamos estava se acabando.

É interessante observar as expressões das pessoas quando contamos as histórias desta viagem. Sempre ficam impressionadas com os números das altitudes e das subidas. Dos poucos cicloturistas que vimos, pelo menos cinco estavam praticamente em sua primeira viagem de bicicleta.

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Aí me perguntam: “É duro pedalar pelas estradas mais altas do mundo?”

Bem, deixe contar mais uma história. Quando estávamos na última subida do Shingo La, percebemos que em nossa velocidade não conseguiríamos atravessar o passo no mesmo dia e isto iria complicar tudo, pois não havia mais tempo nem lugar para ficar. Disse ao guia: “Zangpo, ou as bicicletas cruzam o passo em cima dos cavalos ou nós teremos que acampar no meio do caminho”.

Mais que a lavoura de grãos para colher, Zangpo estava preocupado com o fato de que os cavalos tinham fugido naquela madrugada. Antes do café da manhã, ele havia caminhado duas horas e meia no caminho de volta para encontrá-los e outras duas e meia para chegar ao acampamento onde estávamos. Percebendo a fadiga dos cavalos, Zangpo me propõe: “Não se preocupe, eu carrego nas costas suas duas bicicletas. Não tem problema, sou acostumado, vira e mexe faço bico como carregador para o exército indiano”.

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Quase não acreditei… Sua força impressionava, não só pelo peso das bicicletas, mas pelo incômodo do metal contra as costas. Claro que não aceitei sua proposta. Preferimos continuar empurrando as bicicletas, mas no final ele concordou em fazer um teste e percebemos que os cavalos aguentariam subir com as bagagens e as bicicletas, coitados…

Observando Zangpo e tantos outros trabalhadores destas regiões, posso dizer que a vida deles é que é dura. Estes são os verdadeiros heróis que a história nunca lembra, eles nunca estarão em livros de recordes, mesmo sendo eles que, por vezes, propiciam aos aventureiros chegar aos pontos extremos.

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Em nosso caso, estávamos lá pedalando por que queríamos, simplesmente realizávamos nosso sonho de viagem. Desde o final da volta ao mundo, sonho em voltar para a Índia. Fui apresentado para a Rafaela através do skype de uma amiga em comum; Rafaela conta que foi direto para minha web page para ver como eu era. Quando viu as fotos de Ladakh pensou, “um dia quero pedalar por este lugar”. O sonho dela ainda demoraria seis anos para se concretizar.

Se o caminho é difícil ou não, pouco importa, a rigor tudo é uma questão de calcular bem o tempo que precisamos para realizar a tarefa. Conhecemos pessoas que fizeram a travessia do Khardung La em dezoito horas consecutivas sem parar. Nós acampamos no meio e só terminamos no outro dia.

© Rafaela Asprino

Não acho que haja caminhos duros demais, há caminhos que não refletem nossos sonhos verdadeiros; mesmo que calculemos errado nossas capacidades físicas, sempre podemos chegar a um ponto e continuar numa outra época a partir dali para concretizar o que sonhamos. Assim, acreditamos que a todos é dado o poder para realizar seus sonhos de viagem.

Nosso trabalho tem sido semear sonhos na mente dos cicloturistas, daí é só uma questão de tempo para que eles amadureçam e se concretizem. Acreditamos nas capacidades ocultas das pessoas comuns, como nós: mesmo não sendo superatletas, podemos chegar longe. Acreditamos que através da realização de nossos verdadeiros sonhos concretizamos nossa missão na Terra. Adoramos sentir o universo nos entregando toda a força necessária para concretizá-lo e percebemos que é chegada a hora de realizar. Parafraseando Victor Hugo, nada é mais poderoso que um sonho cujo tempo é chegado.

© Rafaela Asprino

Dica 1

Para viajar à Índia um brasileiro necessita ter passaporte e pedir visto que só pode ser feito através da internet. Em nosso caso, passaríamos em regiões restritas perto da fronteira com a China, ou seja, além do visto de turista precisaríamos de uma permissão especial. Não peça a permissão via consulado, em Leh você consegue a permissão de forma simples e pagando muito menos.

Não existem voos diretos Brasil-Índia, sendo assim geralmente deverá fazer, no mínimo, uma troca de avião. Muitas empresas aéreas permitem que o passageiro fique alguns dias no local onde é feita a troca de aviões sem cobrar nada a mais por isto (“stop over”). Na época, a passagem mais barata seguia através da África do Sul e na volta ficamos 10 dias neste país para fazer um safári.

Outro documento necessário para a Índia é o comprovante internacional de vacina contra febre amarela que deve ser tomada com pelo menos 10 dias de antecedência (não só a vacina, mas o documento que é escrito em inglês).

Dica 2

Desmontamos as bicicletas e não pagamos nada pelo transporte em avião, entretanto, tivemos que pagar extra em todos os ônibus que tomamos. É sempre bom negociar claramente o valor extra da bicicleta e fazer com que escrevam no bilhete a palavra bike e o valor já pago para evitar que tentem cobrar mais ou outra vez.

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Dica 3

No geral se diz que o inverno é a melhor época para visitar a Índia tendo em vista que no top do verão o país sofre muito com as chuvas das monções. Entretanto, para quem deseja visitar os Himalaias Indianos, o verão é a única época, pois entre setembro e maio os acessos à região estão fechados pela neve.

© Rafaela Asprino

Dica 4

Com uma bomba de bicicleta nas mãos vemos que o ar é facilmente compressível. Os gases existentes na atmosfera tem peso e exercem uma pressão que é muito diferente ao nível do mar e a 5.000 metros de altitude. Com 5.000 metros de peso de gases a menos, as moléculas de oxigênio tem volume maior que ao nível do mar, sendo assim, cada vez que encher o pulmão em altitude você terá muito menos oxigênio. Esta falta de oxigênio pode causar o mal de altitude, que apesar de poder ser fatal, em nosso caso só causou os sintomas clássicos: dor de cabeça, cansaço, tontura, falta de apetite, desidratação, hemorragia nasal, e em meu caso, diarreia.

Cada um reage de forma diferente na altitude e não tem muito a ver com o preparo físico, mas sim com a lentidão na aclimatação. A melhor técnica manda subir lentamente para grandes altitudes e descer assim que possível. Justamente o que vínhamos fazendo até chegar ao Moray Plains, quando ficamos cerca de uma semana em grande altitude.

Não tínhamos como evitar esforços físicos, que são desaconselháveis, mas bebíamos muita água. Mesmo assim, de noite, tomávamos remédio para dor de cabeça.

© Rafaela Asprino

Números da viagem

  • 2.000 km pedalados
  • 80 km trekking
  • 29.110 m ascendentes acumulados
  • 27.520 m descendentes acumulados
  • Maior altitude em acampamento: cerca de 5.050 msnm
  • Temperatura mínima: 0,9 graus negativos
  • Temperatura máxima: 42,5 graus
  • 13 passos de montanha, sendo 4 acima de 5.300 msnm
  • Altitude máxima: Taglung La – 5.360 m
  • Altitude mínima: Manali – 2.050 m
  • Dias da viagem: 55 dias em bicicleta/ 4 dias de trekking/ 17 dias de descanso e visitas/ 6 dias entre ônibus e voos para acessar e sair da região/ 8 dias para visita de Délhi – Agra – Varanasi (trem e ônibus). Total: 90 dias de viagem.
© Rafaela Asprino