Não, esta já tradicional revista de bicicleta não está mudando sua linha editorial, nem eu pretendo lançar uma coluna de receitas… Só algumas.

A menos que tenha sempre um carro de apoio, qualquer cicloturista que pretende fazer uma viagem realmente grande não poderá contar com hotéis e restaurantes por todo o caminho. Por melhor que seja sua performance e seu planejamento, mais cedo ou mais tarde terá que se deparar com uma situação onde estará totalmente autônomo e terá que ser capaz de sobreviver sem estas facilidades.

Alimentos quentes são muito importantes principalmente em regiões frias. Alimentos crus podem ter menor peso e volume; comer em restaurantes, conforme o país, é muito caro. Quando fiz a volta ao mundo, durante três anos e meio, gastei somente US$ 10.000, justamente porque sempre acampava e cozinhava meu próprio alimento. Quando fiz os 7 Passos Andinos sofri muito quando fiquei sem fogareiro e quase comprometi a viagem. Não podemos menosprezar a importância de um equipamento como o fogareiro.

Pequenos fogareiros a gás costumam fazer a transição da cozinha de casa para a do acampamento. O gás é de fácil controle, funciona como um fogão normal, o problema é o refil, que além de ser caro, durar pouco e ser difícil de encontrar, ainda é pouco ecológico devido ao lixo que gera. Em uma grande viagem o volume de refis novos e usados é incompatível com uma bicicleta. Gás é bom para pequenos circuitos.

Dentre os vários tipos de fogareiro, aquele tido como a grande vedete é o de multi-combustível (geralmente derivados de petróleo). O queimador é uma peça pequena, mas complexa que sustenta a panela e está ligado a uma garrafa de alumínio onde vários tipos de combustíveis podem ser utilizados, dependendo das possibilidades que encontrar em seu caminho. Claro que a opção mais utilizada é a gasolina, pelo preço e facilidade de acesso.

De Bariloche à Terra do Fogo. © Rafaela Asprino / Arquivo pessoal

Seu princípio de funcionamento é interessante e apesar de parecer um objeto de alta tecnologia, lembro-me de observar versões simplificadas deste sistema de fogareiro em muitas cozinhas indianas quando estive por lá em 1994.

O combustível é pressurizado na garrafa através de uma bomba manual fazendo com que este corra por um duto até o queimador. A queima de gasolina gera fogo vermelho com muita fumaça preta, igual às explosões dos filmes de Hollywood. É justamente o que acontece quando este fogareiro começa a trabalhar, entretanto o duto com combustível pressurizado (e pulverizado) passa pela parte superior do queimador antes de ser efetivamente expelido por este. Isso provoca grande pré-aquecimento do combustível antes da queima fazendo com que vaporize. Logo o sistema adquire temperatura ideal e a chama torna-se azul como a de um fogão a gás. Desde que não baixe muito sua potência a chama é facilmente controlada por um simples botão. Este fogareiro é considerado o mais potente e é o mais caro.

O homem dominou o fogo já faz tempo e desde que esteja em regiões de floresta poderá simplesmente acender uma fogueira. Atualmente existem fogareiros próprios para gravetos e até alguns acoplados a uma mini termoelétrica com saída usb (o conjunto pesa menos de um quilo e custa cerca de US$ 130). Não gosto de depender de fogueiras, acredito que não devemos causar mais impacto do que precisamos nos locais que visitamos, sendo assim prefiro ser realmente autônomo.

Qual é meu fogareiro? Nenhum destes.

Permitam-me contar mais uma história.

Quando saí do Brasil para a volta ao mundo (1993) havia grande controle sobre a importação, entretanto, devido às suas necessidades alguns escaladores conseguiam fazer a “resistência ao sistema”. Heróis como o lendário Sergio Beck, autor de vários livros e guias de caminhada e escalada, conseguiam equipamentos especiais a um custo acessível até para um estudante como eu.

Contam lendas que, seja quem for que entrasse em sua loja e pedisse um produto, por exemplo, um fogareiro, ele perguntava:

  • O que você vai fazer com ele?

Se a resposta fosse escalar ou viajar, tudo bem, mas se dissesse que era para poder fazer o arroz ao lado da churrasqueira em seu quintal ele não vendia. A verdade é que Sergio Beck nunca teve “papas na língua” e sua conduta tinha ética, não estava interessado só em lucro, queria garantir que os raros produtos que conseguia chegassem às pessoas que realmente precisavam.

© Rafaela Asprino / Arquivo pessoal

Foi lá que comprei meu fogareiro a álcool, uma versão “genérica” dos Trangia suecos, que por sinal, é o mesmo fogareiro que utilizamos até hoje. Não confunda com uma espiriteira, nem com aqueles fogareiros feitos de lata de refrigerante. Em nosso fogareiro colocamos o álcool num recipiente de parede dupla. Assim que o sistema aquece, a grande volatilidade do álcool faz com que o fogo aumente saindo com força pelos furos laterais numa bela chama azul. Uma vez que a chama ficou alta você pode colocar um abafador que torna o fogo fraco como uma espiriteira, ou seja, não oferece controle eficiente sobre a chama.

Este fogareiro demora o dobro do tempo para aquecer em comparação com os a gasolina. Em grandes altitudes e baixas temperaturas é difícil até mesmo fazer o álcool pegar fogo, costumo utilizar um isqueiro maçarico para ajudar a aquecer. Por último, com menor poder calórico, seu estoque de álcool terá que ser maior que o estoque de gasolina do outro fogareiro.

Então por que eu continuo com este sistema depois de tanto tempo? Quais as vantagens?

Várias razões práticas de quem cozinhou por três anos e meio em uma barraca: primeiro o preço, caso contrário não poderia nem ter comprado na época. Um fogareiro a álcool com panela, pegador, tampa frigideira e protetor de vento (imprescindível) chega a custar um terço do preço só do queimador de um fogareiro a gasolina (álcool Trangia US$ 34,95 – gasolina MSR US 139,95).

O sistema completo a álcool é praticamente eterno, livre de manutenção, é mais leve e portátil (as peças cabem umas dentro das outras, o queimador não contamina os pratos e a panela).

O álcool é um combustível limpo que não produz fumaça nem mau cheiro, poderá até aquecer um pão em sua chama. A gasolina não serve nem para acender churrasqueira, imagine se uma gota de gasolina cair em suas mãos antes de fazer a comida? Quantas vezes tem que lavar para tirar o cheiro?

Os multi-combustíveis de hoje foram criados para montanhistas, têm que ter alto poder calórico e funcionar bem mesmo em grandes altitudes, pois a água só é obtida através do derretimento do gelo. No geral os escaladores sobem com estoques de combustível limpo (em inglês = gasolina branca) que apesar de raro, mantém o fogareiro limpo e funcionando corretamente. Quem utiliza gasolina comum necessita limpar periodicamente todo o sistema e sujar novamente as mãos. Quem já utilizou um fogareiro a gasolina conhece seu poder, o combustível pressurizado funciona como um maçarico, é esta a sensação que temos ao compartilhar o silêncio da natureza com o irritante som de um maçarico.

© Rafaela Asprino / Arquivo pessoal

Sem produzir qualquer ruído o baixo poder calórico do álcool torna-o de fácil controle. Inúmeras vezes quando acampamos em meio à neve ou chuva fomos obrigados a fazer comida dentro da barraca. Apesar de ser arriscado cozinhar com um fogareiro a álcool dentro da barraca, é quase impossível realizar esta tarefa com um fogareiro a gasolina. Com álcool você faz um chá até dentro do quarto de uma pousada sem ser percebido.

Na viagem pelo Peru a temperatura chegou a –12 °C. Nossos sacos de dormir de pluma de ganso têm temperatura de conforto até -9 °C. Já estávamos com quase todas nossas roupas e ainda sentíamos calafrios. Podíamos colocar mais algumas roupas, mas optamos por utilizar os cobertores de emergência feitos de plástico aluminizados que funcionam como as paredes de uma garrafa térmica. Pronto, conseguimos dormir naquela noite. Entretanto, se a temperatura continuasse a baixar, a solução seria ligar o fogareiro dentro da barraca. Nestes casos, mais uma vez o álcool é mais interessante, pois as emissões de CO (monóxido de carbono) são mínimas e inofensivas comparadas à gasolina. Quem for obrigado a tomar uma medida extrema como esta com um fogareiro a gasolina deve ventilar muito bem a barraca.

Por último, depois do “11 de setembro”, as restrições em aviões aumentaram. A gasolina com os devidos “temperos” pode se tornar um verdadeira bomba e os cachorros são treinados para farejar sua presença. Quando da revista policial na bagagem despachada, um amigo perdeu a garrafa do fogareiro e o outro apesar de ter limpado bem a garrafa foi retirado do avião, obrigado a abrir a bagagem despachada e só pôde viajar no próximo voo.

Com tudo isso, penso em dar uma dica prática e econômica para os cicloturistas que a rigor nunca são obrigados a derreter gelo e nem têm tanta pressa para fazer um chá. O álcool no Brasil é barato e fácil de encontrar, em qualquer parte do mundo sempre tem álcool em farmácias e postos de saúde.

Em países como o Peru e a Bolívia encontramos à venda álcool 96º GL (ideal para o fogareiro) nas vilas para ser consumido como bebida, é a granel ou em embalagens com os seguintes dizeres “álcool potable – Buen Gusto”. Em países com duras políticas contra o alcoolismo como Inglaterra e Noruega, existe o álcool para queimar. De cor azul, é especialmente contaminado impedindo que seja consumido por alcoólatras.

© Rafaela Asprino / Arquivo pessoal

Uma mochila de hidratação é a melhor coisa para carregar água em uma competição, mas não é o melhor para um cicloturista, igualmente os melhores equipamentos de camping geralmente são desenvolvidos para esportes de montanha e nem sempre são o melhor para um cicloturista.

Nos países árabes ou mesmo na Índia, onde bebidas alcoólicas são proibidas, utilizei um produto chamado “spirit”, que é vendido em lojas de materiais para construção (hardware store). Em uma emergência, comprometendo muito a eficiência, nada impede a utilização de gasolina.

Uma mochila de hidratação é a melhor coisa para carregar água em uma competição, mas não é o melhor para um cicloturista, igualmente os melhores equipamentos de camping geralmente são desenvolvidos para esportes de montanha e nem sempre são o melhor para um cicloturista.

Não se preocupe, seja qual for seu fogareiro ou quanto pagou por ele, desde que seja realmente utilizado verá que ele se paga muito rapidamente. Discutir sobre equipamento pode ser muito polêmico, não há verdades absolutas, cada um acaba se adaptando e preferindo certas características de seu equipamento, mas sempre fico empolgado quando encontro bons exemplos que quebram com a máxima “você paga pelo que recebe”.

Cotações da página www.rei.com em 01-07-13.