15 anos após ser concebido, o Circuito Vale Europeu Catarinense de Cicloturismo vem se destacando no cenário nacional e internacional, e busca envolver a comunidade neste desafio de apresentar sua cultura e natureza multidiversa aos ciclovisitantes que, cada dia mais, acorrem à região em busca de uma experiência ímpar de hospitalidade e turismo qualificado.

“Costumeiramente, quando se atribui algo como ‘excelente’ quer-se dizer que alcançou patamares superiores em determinado tema, que conseguiu conquistar um grau bastante destacado e elevado no que se refere às qualidades de suas características”.

Porém, estar no caminho para tal excelência pode e deve ser encarado como motivo de satisfação. E este é o caso do Circuito Vale Europeu Catarinense de Cicloturismo, considerado um dos mais bem estruturados circuitos do país e o primeiro roteiro temático desenvolvido prioritariamente para ser percorrido em bicicleta. Em edições anteriores (nº 1, nº6 e nº11), a Revista Bicicleta apresentou o circuito de maneira informativa, ou seja, descrevendo passo a passo os atrativos que compõem o roteiro para bicicletas, e o mesmo ainda aparece destacado pelo experiente cicloturista Paulo de Tarso, dentre as 15 Pedaladas Inesquecíveis.

Inicialmente, gostaria de esclarecer dois pontos de vista a respeito da denominação Circuito. O primeiro se refere à noção positiva que temos sobre a formatação e promoção turística desenvolvida por aglomerados regionais, baseada na estratégia constante no Plano Aquarela (2007/2010) do Ministério do Turismo, a qual corresponde a criar regiões turísticas formadas por cidades diferentes entre si e que se complementem, seja na estrutura, cultura, paisagem, economia e sociedade, permitindo que o turista, ao passar por todas as cidades integrantes do circuito, tenha uma experiência diversificada. Não se trata apenas de associativismo, mas de coerência e sinergia.

© Therbio Felipe M. Cezar

O segundo ponto a considerar atenta para a contribuição positiva que este tipo de turismo, de maneira organizada, pode trazer para tais comunidades, e apenas para exemplificar apontamos a oportunidade para o empreendedorismo e a criação de negócios sustentáveis; a manutenção dos aspectos característicos da comunidade como arquitetura e paisagismo, gastronomia, músicas e danças, dialeto, história e atividades socioeconômicas, entre outros.

No ano de 2006, a Associação de Desenvolvimento do Turismo Integrado Vale das Águas (Empreendimentos Privados), fundada em 1999, junto com a prefeitura e o Conselho de Turismo da cidade de Timbó, reconhecendo a vocação pré-existente na região para o ciclismo, tomou a iniciativa de contactar o competente Clube do Cicloturismo do Brasil, e contar com a experiência que possuiam a fim de planejar e organizar o que veio a se chamar Circuito Vale Europeu.

Em nosso entendimento, este primeiro passo foi crucial para o futuro do circuito, porque cremos que outros roteiros pelo país deveriam seguir o mesmo exemplo e buscar profissionais que possam auxiliar na formatação de rotas ou circuitos cicloturísticos de maneira responsável e com olhos na sua manutenção e sustentabilidade futuras.

© Therbio Felipe M. Cezar

Não se trata de um circuito que reúne paisagens de sonho, tão somente, vale esclarecer. Tratou-se de revelar o artesanato em vime, artigos em porcelana e cristais, charutarias artesanais, vinícolas e cachaçarias, esportes e atividades radicais, zoológico, religiosidade, museus com temáticas diversas, velas artesanais, pinturas camponesas e entalhes artísticos em madeira, técnicas de lapidação de diamantes empregadas na pintura de ovos, chocolates e charcutaria de alto nível, produção de queijos e doces, enfim, todos representativos das manifestações das culturas locais que, hoje, não são tão somente as originais alemãs e italianas, mas o resultado da interação destas com outras representações étnicas que ao passo dos anos acorreu à região. Talvez sustentar a manutenção cultural originária da Europa e permitir a integração com novas expressões seja um dos motivos do referido circuito encontrar-se tão difundido entre os cicloturistas do país e do exterior. Os cicloturistas querem ‘sentir’ o circuito, não somente cumpri- lo, e não é mera coincidência que este seja um dos poucos circuitos no país escolhidos pelo Clube de Cicloturismo do Brasil para abrigar edições do Velotur.

Quando afirmamos que a região detém, desde há muito, vocação para o ciclismo se deve ao fato de que as comunidades ítalo-germânicas que a integram usavam a bicicleta no cotidiano para os mais variados fins, como ainda se percebe claramente ao percorrer os caminhos rurais e urbanos constantes no roteiro. Esta observação nos faz lembrar, em tempo, que os investimentos em sinalização de trânsito e em estruturas cicloviárias necessitam ser constantes no entorno, porque a cada dia aumenta o número de pessoas que escolhem deslocar-se de bicicleta, prioritariamente. Notamos, porém, que os esforços por uma contínua formação cidadã para o uso da bicicleta (seja na escola, na fábrica ou na empresa) ainda seja um eixo que mereça atenções e ações concretas e urgentes em todas as cidades do circuito, dependendo e envolvendo a todos os atores sociais, sejam eles públicos, privados ou organizações da sociedade civil.

© Therbio Felipe M. Cezar

O Circuito Vale Europeu Catarinense concentra os esforços de nove pequenas cidades, cada uma com suas peculiaridades, localizadas a aproximadamente 170 km da capital do estado, Florianópolis, e muito próximas a outros centros de grande interesse cultural e turístico como Blumenau, Balneário Camboriú, Joinville, e a apenas 250 km de Curitiba – PR. Isto representa uma estratégica posição junto a mercados que podem, e o tem feito, originar demandas que se dirijam à região a fim de percorrer os 300 km de roteiros planejados para ciclistas com condi- ções físicas em dia, experiência capaz de garantir autonomia e tempo para desfrutar tudo o que se oferece, explícita ou implicitamente, em cada uma das localidades.

A sugestão é que se percorra o circuito em sete dias, tendo início e final na cidade de Timbó, mas não quer dizer que o cicloturista não encontre razões suficientes para estender sua estada em um período de férias sobre a bicicleta. É certo que os trechos diários são de curta quilometragem, porém, em dias de extremo calor ou de chuva constante, exigem algo mais do ciclista. Não há como dizer, e a organização do circuito está de parabéns em sempre reforçar o contrário, que este seja um percurso para iniciantes.

Além do grau de dificuldade acima da média, ao zingrar por terrenos acidentados 90% compostos por estradas vicinais, a proposta é que o percurso se dê de maneira autoguiada, ou seja, o cicloturista tem que organizar seus equipamentos, água, alimentação, bem como planejar sua hospedagem antecipadamente. Orienta-se, também, que o Circuito esteja ‘dividido’ em dois momentos não obrigatoriamente consecutivos, denominados parte baixa e parte alta, sendo esta última a que se apresenta com restritos elementos de hospedagem e alimentação (ainda que de qualidade), necessitando contatos prévios a fim de conseguir vagas.

© Therbio Felipe M. Cezar

Da mesma forma, como se trata de uma região mais isolada, os cuidados com a segurança e saúde deverão ser redobrados, visto que o acesso, até mesmo por veículo motorizado, poderá levar mais tempo do que se imagina. A comunicação via celular é bastante precária neste ponto do percurso, cartões de crédito não são aceitos na maioria dos empreendimentos e não há caixas-eletrônicos de todas as bandeiras bancárias. É necessário prevenir-se.

Portanto, se as cidades desejam ampliar a demanda de visitantes e com isto incrementar-se econômica e socialmente necessitam articular a garantia deste tipo de prestação de serviços, o que irá, por conseguinte, aumentar a qualidade de vida da comunidade ali residente.

A hotelaria da região é diversificada em estruturas, tipologia, capacidade de carga e técnicas de bem-receber, correspondendo às expectativas, superando-as em vários momentos. Da mesma maneira, a gastronomia já demonstra inovações sob a forma de bistrôs, cafés, confeitarias, casas de Chopp, cervejarias e restaurantes de hotéis, ainda que os horários de atendimento sejam, ainda, limitados.

© Therbio Felipe M. Cezar

Outra questão que se faz notar é que, ainda que seja um circuito autoguiado, seria interessante pensar em formar, na própria região e com os ciclistas que lá se encontram, um grupo de guiamento para ciclistas idosos, deficientes físicos / visuais, que talvez não consigam cumprir todo o roteiro, mas nem por isso deixarão de desfrutar o que a região oferece, cumprindo apenas algumas de suas partes, aproveitando para conhecer outros aspectos que, por vezes, o cumprimento do trecho diário não oportuniza. Outra possibilidade, ainda que seja recorrente ver casais realizando juntos o circuito, é a de oferecer alternativas regionais aos acompanhantes de ciclistas, que talvez não pedalem, mas poderão se interessar pela oferta de atrativos, produtos e serviços não diretamente conectados ao mundo da bicicleta.

A experiência proporcionada no transcurso do Circuito Vale Europeu Catarinense de Cicloturismo varia de ciclista para ciclista. No entanto, nos permitimos ouvir suas opiniões por sete dias, tão variadas quanto suas origens, paisagens gravadas na memória e personagens locais admitidos fraternalmente.

© Therbio Felipe M. Cezar

Depoimentos

“… Um desafio ao corpo, um deleite para a alma.” (fisioterapeuta, 31 anos, SP)
“Há muito tempo, o Vale Europeu estava nos meus planos e finalmente estou aqui. Vou guardar o passaporte por muitos anos.” (empresário, 28 anos, RS)
“Esta é a terceira vez que venho, tenho muitos motivos para estar aqui.” (engenheiro, 34 anos, PR)
“Os turistas identificam o que o circuito tem a oferecer a eles, mas não imaginam o que o contato com o diferente contribui com a comunidade.” (empresária, 35 anos, SC)
“Se a comunidade participasse mais ativamente, assumisse a sua parte nisto, teríamos resultados ainda melhores e mais amplos.” (professora, 23 anos, SC)
“É a primeira vez que venho, pedalo há pouco tempo. Apesar do cansaço, estou muito feliz de estar aqui… Sinto-me recompensada.” (profissional da saúde, 32 anos, SP)
“… O pessoal lá em casa só acreditou depois de ver as fotos…” (industrial, 43 anos, RJ)


© Therbio Felipe M. Cezar

Solicite o envio antecipado (via Correios) do Guia do Vale Europeu, um completo material com endereços, telefones, e-mails e sites para planejar a visitação.

A retirada do Passaporte e do Certificado deverá ser feito na cidade de Timbó (Associação Vale das Águas/Thapyoka). Endereço: Avenida Getúlio Vargas, 201- Centro. Fone: 47 3382 0198. E-mail: consorciotur@cimvi.sc.gov.br

Para maiores informações, acesse: circuitovaleeuropeu.com.br

Agradecimentos especiais para realização desta matéria e atenção dispensada à saúde do redator no decorrer do percurso: Associação Vale das Águas, Timbó Park Hotel, Clube de Cicloturismo do Brasil e FreeForce.

A Revista Bicicleta quer visitar sua região e promovê-la ao publicar sua experiência. Contate-nos para saber como.

© Therbio Felipe M. Cezar