Demorei um pouco para “digerir” a experiência na China, um país cheio de ambiguidades, desigualdades, luzes e história. Entrei na China em novembro pelo litoral sul em Dongxing, uma região industrial e populosa, verdadeiro choque para quem vinha de cinco meses pedalando pelo tranquilo, rural e sorridente Sudeste Asiático e se depara com muitas obras, poeira, caras fechadas e muito barulho.

Uma parte difícil de fazer cicloturismo em um país enorme como a China, é decidir por onde passar, pois cada rota escolhida dava uma sensação de pesar por deixar ótimos lugares e atrativos para trás. Imagino que o cicloturista que atravesse o Brasil passe pelo mesmo dilema. Demorei uma semana para decidir onde ir e também para finalmente desistir de ir ao Tibete – até então, eu ainda tinha esperanças de encontrar um meio não muito caro de atravessá-lo, mas as taxas e imposições do governo chinês tornam o turismo por lá extremamente caro, elitizado e excludente. Foi uma pena, pois além de não conhecer o Tibete, também tive de pegar um voo para o Nepal, que queria muito evitar. Enfim, fica o desafio para uma próxima cicloviagem, pela rota da seda.

Decidi conhecer quatro grandes regiões alternando trechos de bike com trem para conseguir completar em um mês, passando pelo bucólico Carste do Sul, pela gigante hidroelétrica de Três Gargantas no centro, pela antiquíssima cidade de Xi’An e o museu dos guerreiros de Terracota, no norte, e um trecho da Grande Muralha no deserto de Gobi, ao noroeste.

O bucólico Carste do Sul

Logo se vê que cidades com alguns milhões de habitantes são comuns, estão presentes a cada 100 ou 120 km e se alternam de maneira abrupta com o meio rural. Nas cidades, é espantosa a quantidade de carros de alto luxo e o neon dos edifícios, ostentando a fartura de recursos financeiros e energéticos e contrastando friamente com a pobreza crônica e cinzenta da zona rural.

A agricultura é intensa e de modo geral voltada para a produção de alimentos para o homem, mais diversificada e moderna que no Sudeste Asiático. Tratores e colheitadeiras, dois importantes ícones da revolução agrícola, estão presentes aqui ou ali, mas novamente contrastam com um grande contingente de mão de obra (a maioria) que faz tudo à moda antiga, até mesmo regar grandes plantações carregando baldes de água. Além do arroz, que é a principal cultura, horticultura variada, mandioca, frutas (mamão, laranja, goiaba, manga, mexirica etc.) e cana-de-açúcar estão presentes em cada pedaço de terra disponível.

Nas calçadas, encostas, terrenos baldios, beiras de estrada e qualquer lugar disponível há um pé de chicória ou cheiro-verde plantado.

Permanece o mesmo padrão do resto da Ásia até agora: não vejo áreas devolutas e improdutivas: se foi desmatado, é usado para produção de alguma coisa. Não se vê latifúndios, área degradada, abandonada ou afins, tão comuns em nosso espaçoso Brasil. Por outro lado, não existe APP (área de preservação permanente)! Sem maiores julgamentos ou análise sobre a sustentabilidade da produção, considerei a China um país bem-sucedido na sua agricultura, uma vez que consegue prover trabalho para milhões de famílias e alimentos frescos muito baratos e diversificados a mais de 1,2 bilhão de pessoas.

© Nicholas Allain Saraiva

Neste sentido, temos muito que aprender com estes povos asiáticos. Imagino que parte deste padrão se deve à antiguidade deles neste território. Chineses, cambojanos, laotianos e vietnamitas estão na mesma terra há milhares de anos, sabem bem como manejá-la com técnicas tradicionais simples e eficientes, não são nações “fake” formadas pela invasão bárbara de colonizadores usurpadores. A impressão é que a relação deles com a terra é diferente da brasileira, latifundiária e de curto prazo. Entretanto, acho que a China corre o risco de ter este status alterado nas próximas décadas, com as mudanças prometidas pelo partido comunista nesta última reunião geral, ocorrida em novembro de 2013, quando foi aprovada uma resolução no sentido da permissão de privatização de terras rurais. No atual sistema, as áreas rurais são públicas e o governo concede o usufruto temporário às famílias, que pagam tributos para usar. É um sistema cruel e quase feudal, cujo padrão de construção das moradias parece ressaltar, mas que por outro lado garante o acesso à terra a um número bastante grande de pessoas que exploram pequenas e médias parcelas, geralmente de forma coletiva e familiar.

Após 11 dias e 750 km de pedal em relevo suave e tranquilo, passando por belas paisagens de arrozais, estradas de terra e pegando a rebarba do tufão que atingiu o mar do sul da China e assolou as Filipinas, cheguei em Yangshuo, conhecida pelas montanhas de calcário bucólicas, rios cristalinos e mata verde. Yangzhuo é bem turística e me fez lembrar de Campos do Jordão – SP, lugar com hotéis caros, bares da moda etc. Estrangeiros são raros e aqui foi o primeiro lugar que vi alguns, mas o hostel em que me hospedei nunca tinha recebido nenhum e quiseram tirar fotos e tudo mais! De lá, foram mais três dias de pedal neste tipo de ambiente, passando por vilas de 600 anos e que continuam iguaizinhas, até chegar a Guilin, a capital da província, de onde peguei um trem para Jingmen.

A caminho das Três Gargantas

Nesta altura da viagem, já tinha me dado conta de coisas bastante peculiares da China, em especial, a grande quantidade de veículos elétricos de todo tipo e a evasão de jovens das vilas e áreas rurais. Fato triste, os jovens deixam a zona rural para trabalhar nas fábricas das cidades e as vilas são habitadas, sobretudo, por velhos e crianças.

Em Guilin, hospedei-me numa pequena e suja pousada ao lado da estação de trem e o lugar foi palco de um dos maiores sustos que tomei na vida. No começo da noite do meu primeiro dia, o apartamento em frente ao que eu estava, do outro lado de um beco de pouco mais de dois metros, explodiu e pegou fogo, possivelmente causado por um vazamento de gás. O estrondo e a vibração foram realmente assustadores, quebraram as janelas do meu quarto, voaram estilhaços por todo o quarteirão e num primeiro momento eu achei que tinha sido algo com a estrutura do prédio onde eu estava.

Passado o susto, na alvorada do dia seguinte eu estava embarcando para Jingmen, a caminho das Três Gargantas, no rio Yangtzé, e após 18 horas de viagem e pouco mais de 900 km percorridos, cheguei no meio da madrugada fria na parte central da China. Minha bagagem, que fiz o vacilo de despachar como carga, chegou só na tarde do dia seguinte e amarguei um dia de espera num hotelzinho fuleira ao lado da estação. Por fim, dois dias depois, segui para a jovem e moderna Yichang, a cerca de 220 km de Jingmen, de onde peguei o barco para o tour pelas famosas Três Gargantas. Descobri depois que os chineses deixam levar praticamente tudo nos trens e não tive problema nenhum em embarcar com a bike e tudo nos trechos seguintes.

Yichang foi uma passagem rápida, mas interessante. Conheci alguns ciclistas na noite em que cheguei. Jantamos, eles me ajudaram a encontrar hotel barato, reservar o barco e, na manhã seguinte, demos um rolê de bike pela cidade. O visual das Três Gargantas é bonito, mas nada de extraordinário e que mereça toda a propaganda que li do lugar. O esplendor das gargantas ficou na memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-las antes da inundação da represa.

Os chineses têm bem desenvolvida a tecnologia de transplante de árvores e em todas as cidades se vê grande quantidade de replantios de árvores adultas, algo muito raro no Brasil. No caminho de Yichang, parei para ver o trabalho da retirada de algumas árvores perto da estrada e quando cheguei na cidade, parei para descansar e tirar fotos de uma verdadeira floresta transplantada. É algo simples, útil e que o Brasil podia adotar.

Xi’An

Após 170 km de barco foram mais dois dias de pedal agradável por estradinhas entre vilas e plantações beirando a represa até chegar a Wanzhou, onde peguei mais um trem para Xi’An. No caminho de Wanzhou, o rack traseiro quebrou, gastei horas para fazer uma gambiarra que me permitisse continuar e cheguei só à noite na cidade, onde tive muita dificuldade de encontrar hotel. Acabei ficando o dia seguinte na cidade para soldar o rack, que é de alumínio e de difícil reparo, mas que por sorte deu tudo certo e foi quase de graça.

Nesta altura, já aclimatado, a minha impressão sobre a China foi de um país acessível ao cicloturismo, com ampla malha viária composta de estradas de portes variados para poder escolher, boas pessoas e ótima comida, farta e barata. Dois dólares são suficientes para comer muito bem, e com três dólares tem-se um banquete! O principal problema encontrado foi em relação à hospedagem, pois além de ser difícil encontrar pontos de camping, alguma paranoia do governo chinês restringe o acesso de estrangeiros a hotéis licenciados, que obviamente são os mais caros. Em algumas províncias, principalmente mais ao norte, foi muito difícil encontrar hospedagem barata. Felizmente, no sul praticamente não senti esta limitação.

A comunicação foi um desafio ainda maior que o Sudeste Asiático: o inglês é quase que totalmente ausente e sinto uma falta de vontade das pessoas em tentar facilitar a comunicação, de usar palavras alternativas ou falar devagar. Isto gera uma situação (agora) cômica: quando eles desembestam a falar e percebem que não estou entendendo bulhufas, passam a escrever – em mandarim – tudo que falaram, como se fizesse alguma diferença! Além disto, os chineses têm gestos para descrever a maioria dos números e quando você vai a um comércio e pergunta o preço geralmente recebe um sinal de joia, hang loose ou algo do tipo, que significa 6, 7, 8! Às vezes isto irritou, pois eles assumem que qualquer um sabe os sinais e, ao invés de falar, repetem sistematicamente, mesmo estando óbvio que eu não estava entendendo.

Senti-me seguro pessoalmente e tranquilo em relação à bicicleta e meus pertences em geral, como em toda a Ásia até agora.

Nesta altura, já estava sentindo também os efeitos negativos da censura aos meios de comunicação, desde a televisão, que é vedada a canais estrangeiros, aos bloqueios às redes sociais e às ferramentas de busca na internet. O Google sofre grandes restrições em todas as ferramentas, inclusive o Google Maps e Translator, que estavam auxiliando bastante antes. Alguns exemplos são cômicos: digitei algo negativo, como “ditadura na china”, e o resultado da busca mostrava receitas de tofu!

Na terceira semana, depois de passar por algumas boas situações, eu estava com outro olhar sobre o chinês. Pela pequena experiência no Brasil, eu os tinha como fechados, desconfiados e até mesmo mesquinhos, mas isto não é verdade. Em geral, é um povo desconfiado, mas pronto a ajudar e interagir nos momentos mais inesperados. O nível de segurança social e a honestidade em geral me impressionaram muito – positivamente. Senti-me seguro pessoalmente e tranquilo em relação à bicicleta e meus pertences em geral, como em toda a Ásia até agora.

Um aspecto negativo que eu tinha notícia e se confirmou foi em relação à higiene. Não higiene pessoal, mas sim sobre a precária limpeza dos lugares, dos restaurantes e o hábito horrível de escarrar em qualquer lugar. Não é nada incomum estar num restaurante e o sujeito do lado puxar aquele catarro profundo e barulhento e dar um cuspão no chão do seu lado. As estações de trem são ótimas, amplas e modernas, as melhores que já vi, mas caramba, você encontra de tudo no chão, de restos de frango a cascas de frutas e só não ficam realmente nojentas, pois eles têm um batalhão de faxineiros que passam varrendo sem parar.

Tendo percorrido mais de dois mil quilômetros desde que entrei no país, ainda me espantava a quantidade de obras e poeira. Para todo lado, coisas sendo construídas, reformadas, modernizadas, refeitas etc. Fica claro os 10% de crescimento ao ano… Chamar o Brasil de país emergente, frente ao que vi na China, dá pena. Obras iguais ao setor noroeste em Brasília, que considero algo de grande porte, espalhado por praticamente todas as cidades que passei até agora. Não que eu aprove, ache positivo ou negativo, sem julgamentos ou posição, é apenas uma constatação. O país vive num grande PAC.

A última etapa da viagem foi a mais fria e cultural, mas infelizmente o tempo foi apertado e os pedais curtos, pois o voo para o Nepal acabou saindo antes do previsto devido à disponibilidade de passagem barata.

O desembarque em Xi’An foi numa noite fria de nevoeiro que foi marcado pela vista imponente e iluminada dos muros da cidade, construídos em 1370 na era Ming. Dei uma volta à toa pela cidade para jantar e tirar umas fotos noturnas do muro antes de ir para o hostel em que tinha reserva.

Xi’An tem mais de três mil anos e uma curiosa e marcante presença muçulmana datada de sete séculos, além de ser berço do que é considerado uma dos mais significativos achados arqueológicos da humanidade, o exército de guerreiros e cavalos de Terracota. O sítio tem pouco mais de dois mil anos e é formado por mais de oito mil soldados e milhares de cavalos, todos em tamanho natural, individualmente desenhados e ricamente ornamentados.

Achei Xi’An uma cidade muito interessante, ampla, moderna, tradicional e multicultural. Fiquei perto do bairro muçulmano e aproveitei a ótima comida, feita na rua em potentes fogões movidos a carvão mineral que parecem turbinas de foguete! Em três dias pedalei pelos principais pontos da cidade antiga, museus e monumentos, tudo em vias bem acessíveis ao ciclismo – um ponto bem positivo da China: ciclovias em todas as cidades de médio e grande porte.

A Grande Muralha

O último trecho de trem foi para o nordeste do país no coração do deserto de Gobi, em Jiayuguan, para visitar a Grande Muralha. A viagem foi memoravelmente desconfortável, sentado a noite inteira num assento duro e estreito de um trem abarrotado de gente e malas. Desembarquei na cidade pouco antes da alvorada, com termômetro marcando – 9 °C. Tinha planos de ir direto para a muralha, mas o frio, que se agravou na alvorada, estava demais para mim e eu me abriguei no saguão de um hotel para esperar o sol esquentar um pouco.

Jiayuguan é também uma cidade histórica localizada em um grande oásis no coração do deserto de Gobi e foi o primeiro assentamento criado na Rota da Seda, de comércio entre o Ocidente e o Oriente. Está localizada numa região considerada estratégica e foi por muitos séculos a fronteira oeste do império chinês, marcada por um grande forte de defesa militar e pelo início da Grande Muralha. O trecho da muralha aqui foi totalmente recuperado a ponto de, em minha opinião, descaracterizá-la por comprometer a sua aparência histórica. Mas de qualquer maneira ainda se trata de um artefato histórico único que impressiona e faz valer a visita. O fato de estar cercado por montanhas áridas, picos nevados e no meio paisagens há muito percorridas por Gengis Khan torna o trecho ainda mais espetacular.

Eu, que me considerava um bom mecânico de bike, a cada dia aprendo algo novo nas situações que se apresentam na viagem

A despeito da importância histórica de Jiayuguan para a China e para a humanidade, o governo não poupou a região e induziu ao longo das últimas décadas um intenso desenvolvimento industrial, calçado na mineração de materiais como cobre, ouro, ferro, manganês, fluorita e barita, o que deixa o ar da cidade e entorno bastante poluído e com o horizonte denso, marrom. Como quase tudo na China, Jiayuguan, que tem apenas 230 mil habitantes, é uma cidade de superlativos: tem crescido a uma taxa de 17% ao ano nos últimos 11 anos e o plano do governo é dobrar a área ocupada nos próximos nove. Tem duas usinas nucleares, um centro de treinamento olímpico de última geração e centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico… Quer mais para uma cidadezinha deste porte?

Eu, que me considerava um bom mecânico de bike, a cada dia aprendo algo novo nas situações que se apresentam na viagem e descobri que o frio extremo pode danificar freios hidráulicos. Fazia uns -12 °C quando, para minha surpresa, eu pressionei o manete do freio e o fluido vazou pelos pistões, o que fez perder totalmente a frenagem. Li posteriormente, em relatos nos fóruns de discussões, que o frio pode afetar freios hidráulicos, mas não é consenso e não encontrei explicação das razões. Minha teoria é que o frio extremo provoca micro contração nos pistões e outras peças, ocasionando vazamento. Prova disto foi que depois que voltei à temperatura “normal”, coloquei fluido em uma oficina, fizemos todo o procedimento de sangria e o freio voltou a funcionar. Mais uma para o repertório! Uma dica: a China, apesar de fabricar quase tudo que o mundo consome hoje em dia, tem um mercado interno muito fechado e não é um bom lugar para peças de bike. As bicicletarias são raras e, com poucas exceções, vendem apenas peças das linhas básicas da Shimano.

Nepal, aí vamos nós!