O projeto Acolhida na Colônia empresta a 30 cidades do belo estado sulista possibilidades de novas escolhas para pequenos produtores rurais de, ao redirecionar sua atividade produtiva, promover a vida, a sustentabilidade ambiental, a economia solidária organizada e a manutenção da identidade cultural local através da promoção de roteiros agroecológicos.

Pedalamos pelas duas cidades precursoras do projeto, Santa Rosa de Lima e Anitápolis e encontramos mais do que caminhos cicloturísticos. Encontramos gente preocupada com a qualidade dos produtos orgânicos que lá têm origem e com a promoção de um alimentar saudável como se espera e merece. E o melhor, preparados para receber cicloturistas em busca de uma experiência ímpar.

© Therbio Felipe M. Cezar

Acolhida. Palavra complexa, não de ser dita, mas de ser vivida. Remete a colher, recolher, resgatar, proteger, receber, abrigar, enfim, cuidar. Escolhemos pedalar pela Acolhida na Colônia a convite de tudo o que temos lido nas mídias sociais e no próprio site da organização. Para tanto, resolvemos reunir um cicloturista experiente, um cicloturista recente e um ciclista urbano que jamais havia realizado cicloturismo.

Fizemos nossa reserva através do site da Acolhida na Colônia, contando com a especial atenção do Enilton Pedrosa, um carioca que escolheu re-significar seu modo de vida, trabalhando e vivendo em Santa Rosa de Lima. A atenção é a base do cuidado. E desde o primeiro telefonema, essa foi uma constante.

© Therbio Felipe M. Cezar

A Acolhida na Colônia é uma experiência brasileira baseada na reconhecida Rede Accueil Paysan (França, 1987), hoje formada por mais de 180 famílias presente em 30 cidades catarinenses. A associação foi criada em 1999 e após 14 anos tem recebido reconhecimento internacional, além de ter sido laureada por isto. Compartilhando o saber fazer agroecológico baseado em agricultura orgânica, mantém a paisagem e a vida inscrita nela.

Os principais mananciais do referido estado têm suas origens nas nascentes e rios da região de Santa Rosa de Lima e Anitápolis, constituindo o divisor de águas de qualidade que garante a vida de milhares de pessoas na região.

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Os princípios da organização, ainda que simples, são de uma importância fundamental para a sobrevida da experiência ali ofertada. São eles:

No ritmo das estações, as famílias de agricultores convidam a todos para compartilhar desta felicidade que é fazer parte da “Acolhida”. Em todas as refeições que realizamos nos três dias de estada, os proprietários estavam sentados à mesa conosco, constituindo um vínculo com o cotidiano deles e permitindo que nos sentíssemos, literalmente, em uma família.

Não convém perder a oportunidade de dizer que a qualidade dos produtos levados ao deguste é superior em todos os aspectos, porém, melhor que falar sobre eles é convidar a que sejam desfrutados com calma, tempo e sem preconceitos, visto que estamos falando de referenciais culturais sedimentados e com um valor antropológico especial.

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É um turismo de verdade, como comentamos entre nós. Feito de gente de verdade, silêncio de verdade, comida de verdade.

Dentre os vários prêmios que têm conquistado, vale destacar o Prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com o Governo Federal/2005. Ainda assim, a humildade com que falam de suas lides e do reconhecimento de seu mérito é mais do que sensibilizadora.

Ao conversar com Valnério e Leda Assing, casal precursor do projeto e um dos proprietários de pousadas rurais de Santa Rosa de Lima, compreende-se que o fazer diário compartilhado visa à manutenção de sua identidade cultural, porém, alcança um patamar ainda maior quando o visitante aceita esta troca fraterna de saberes.

É um turismo de verdade, como comentamos entre nós. Feito de gente de verdade, silêncio de verdade, comida de verdade. Indicamos que a visitação à Acolhida se dê em mais de quatro dias e que se dedique todo o tempo para estar entre seus personagens, coisa que para nós já faz imensa falta. As bicicletas são bem-vindas por toda a parte.

© Therbio Felipe M. Cezar

A velocidade é inimiga da visitação na Acolhida na Colônia. Não é exagero, há tanto para ver quanto para sentir.

Sabemos que o Cicloturismo no país está ganhando a cada dia mais adeptos, porém, gostaríamos de reforçar que não se trata de um destino turístico de massa e nem se têm tal pretensão. Da mesma maneira, é necessário entrar em sintonia com a forma de vida social lá proposta, constituída de unidades familiares voltadas para a produção cooperativada, as quais dedicam uma quantia caríssima de seu tempo ao ato de cuidar de seus ciclovisitantes.

Reforçamos, não busque pedalar o roteiro com pressa, porque não vai perceber nada absolutamente do que salta aos olhos quando miramos com mais delicadeza e tempo. A velocidade é inimiga da visitação na Acolhida na Colônia. Não é exagero, há tanto para ver quanto para sentir. Quando tivemos a oportunidade de conversar com Sebastião Vanderlinde e Rosângela Bonetti, que fazem parte da administração da Acolhida, perguntamos qual seria, hoje, o principal desafio da organização. Após um silêncio reflexivo, e compartilhando da mesma opinião que o casal Assing, responderam que se trata de levar os jovens ao convencimento de que lá há uma vida de qualidades plurais para todos eles, caso sua escolha seja por permanecer residindo na cidade ao final da escola.

© Therbio Felipe M. Cezar

A migração para centros urbanos maiores ainda é a grande ilusão que impacta a vida nos inúmeros espaços rurais sulistas. Não serei petulante ao tentar descrever a beleza das paisagens, das inúmeras cachoeiras e rios de água límpida e refrescante. Tampouco, irei perder tempo rebuscando-me em elogios rasgados ou tentar encontrar superlativos que se adéquam ao que lá espera por todos.

Sobre o roteiro, basta visitar o site, é bem informativo e detalhado. Há planilha e mapa para download. Trata-se de um destino que oferece ainda algo que, a cada pouco, se torna um grande diferencial: são lugares seguros. O grau de dificuldade do percurso é relativamente pequeno quando não nos exigimos percorrê-lo velozmente.

© Therbio Felipe M. Cezar

E, para finalizar, parte das reflexões que nos provocaram ao pedalar entre estas famílias nos fez repensar o real significado da palavra ‘obrigado’.

Percebemos, também, que de todo o conhecimento que adquirimos nos bancos escolares formais, apenas uma fração nos salvará a vida. Já os saberes encontrados neste roteiro de agroturismo, porém, por mais simples e singelos que pareçam, nos fazem crer que aquelas pessoas leem a natureza e a compreendem, e desta forma, ajudam a salvaguardar a própria vida e a de milhares de pessoas como eu e você, através de suas escolhas e testemunho.

© Therbio Felipe M. Cezar

Percebemos, também, que de todo o conhecimento que adquirimos nos bancos escolares formais, apenas uma fração nos salvará a vida.

As opiniões de meus companheiros de pedalada em meio ao agroturismo são variadas e estão afetas à experiência de vida de cada um. Mas, confesso, que coincidimos enormemente na sensação de que de lá voltamos outros, que parte de nós ainda agora se encontra sensibilizada pela dócil e amorosa natureza impregnada de vida nos roteiros agroecológicos da Acolhida na Colônia.

Viva a Bicicleta, sempre!


  1. O agroturismo é parte integrante das atividades do estabelecimento rural e se constitui num fator de desenvolvimento local;
  2. Os agricultores desejam compartilhar com os turistas o ambiente onde vivem, sendo que a recepção e convívio dos mesmos deve ocorrer num clima de troca de experiência e respeito mútuo;
  3. O agroturismo deve praticar preços acessíveis;
  4. Os serviços agroturísticos são planejados e organizados pelos agricultores familiares, que garantem a qualidade dos produtos e serviços que oferecem.

Acesse:
www.acolhida.com.br